Os dois eram amigos do Facebook.
Ela postou um conto erótico. Ele gostou e fez o mesmo. Ela respondeu com um segundo conto, ainda mais picante. Ele buscou o empate e soltou a franga – mas nada comparável ao terceiro texto dela. Ambos recebiam críticas e elogios, mas sabiam que só uma opinião importava – a do(a) colega de contos eróticos.
A essa altura, já haviam trocado e-mails e continuaram o diálogo em privado, realmente o Facebook não era espaço para textos tão obscenos – um jogo de sedução das partes baixas.
Foi então que decidiram enfrentar o vírus, romper a quarentena (por sorte, estavam em cidades próximas do mesmo estado) e ver qual era a do(a) colega. Ele sabia que, com o cabelo e a barba sem cortar há três meses, estava feio pra dedéu, se neandertalizava a passos largos, mas também tinha consciência de que as afinidades entre os dois eram fortes. E tinham uma vantagem, os textos sacaninhas haviam deixado explícito do que ele e ela mais gostavam. “Meu reino por um sexo oral!”, escrevia ele. “Com linguadas no capricho!”, ela acrescentava. “Dane-se o vírus!” era a palavra de ordem comum, versão contemporânea do Deus vult (Deus assim quer) da Primeira Cruzada.
Assim, certo dia, ao cair da noite, os dois se encontraram pela primeira vez. Seguiram para o apartamento dele – a neta foi sumariamente despejada, com ordens para dormir na casa da mãe – e treparam como quarentemados no cio. Foram plenamente atendidas as reivindicações expressas nas palavras de ordem sexuais. E muito mais, que a imaginação dos dois contistas eróticos corria solta.
No dia seguinte, ela voltou para seu isolamento. Dias depois, trocando e-mails, os dois admitiram que haviam se contaminado com o Covid-19.
Foram internados em hospitais diferentes – ele do SUS, ela de uma rede particular. Morreram no mesmo dia, praticamente na mesma hora. Nos últimos momentos, descartaram as memórias um do outro para evocar docemente velhos amores.
Fama
Ela queria ser famosa. Vestiu um shortinho e um bustiê e foi pra uma fila de shopping. Gritava sem parar “Abaixo a Covid-19!” e passou a beijar todo mundo, no rosto ou na boca. Um amigo que a acompanhava gravou os beijos e as reações espantadas, escandalizadas ou divertidas das vítimas do assédio. Depois, postou e esperou.
Viralizou com tudo. Quando alcançou meio milhão de seguidores, deu entrada no hospital. Ao morrer, tinha mais de dois milhões de likes em sua página.
