Félix, freguês dos mais antigos da banca do Guima, em Sobradinho, é, segundo consta nos anais da fofoca, general da reserva. É verdade que os maldosos, provavelmente por inveja, costumam dizer que o velhote não passa de tenente. Bem, não importa o posto, mesmo porque o sujeito anda meio cabreiro com algumas coisas. Quem me contou? Isso é segredo que pretendo levar para o túmulo, mas é algo que pode ser negociado dependendo da paga.
Pois lá estava o ex-combatende de nada na banca do Guima. Foi acompanhado da digníssima companheira de praticamente toda vida. Nisso, o Guima se aproximou do casal para cumprimentá-los.
— Bom dia, general! Bom dia, dona Luzia!
A mulher devolveu o cumprimento com um sorriso nos lábios, o que não aconteceu com o esposo.
— Bom dia pra quem, Guima?
— Aconteceu alguma coisa, general?
— Nada neste país está bem.
— Hum…
— Tudo uma bagunça só.
— É verdade, general.
— Entra governo, sai governo, nada presta.
— É verdade, general. O senhor tem razão.
Em determinado momento, a senhora, afeita a novidades, entrou na banca e começou a olhar as revistas. O general, aproveitando que a esposa havia se afastado, baixou o tom da voz e disse:
— Guima, na verdade, na verdade, o país está até bem. O meu problema é a minha esposa que fica o dia todinho me dando tarefas em casa. Eu já não aguento ser subalterno dela. Logo eu, um general! Pode uma coisa dessas?
— É verdade. Se bem que marechal é patente mais graduada que general.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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