Não sei como vovó se casou com meu avô, um homem bruto, essência exaltada da ignorância. Talvez não tivesse escolha ou, por lapso de olhar, não tenha percebido o poço de desatino que se escondiam por detrás dos lindos olhos azuis do sujeito que se tornaria seu marido após um ano de serem apresentados em um almoço na casa de uma tia.
Eram primos distantes e, como acontece com os que compartilham tal parentesco, se apaixonaram. E daí para o altar foi um pulo, com direito a dois ou três anos de pura felicidade. Quer dizer, aconteceram alguns arranca-rabos, o que é até esperado durante o tempo de adaptação dos cônjuges ao convívio.
A coisa apertou mesmo a partir do nascimento da minha mãe, quando a situação chegou ao clímax da discórdia no matrimônio. Meu avô não entendia por que a esposa não lhe dava a devida atenção, passando muito mais tempo entretida com aquele pequeno ser, que só sabia mamar, chorar e sujar fraldas.
Quando mamãe completou três anos, vovó foi tomada por um arroubo de querer pintar. O esposo foi totalmente contrário àquela ideia. Onde já se viu, do nada, ter ímpeto por algo que jamais desejou?
— Não aprovo.
— O quê?
— Não aprovo.
— E desde quando eu preciso da sua aprovação para fazer alguma coisa, Jaime?
— Pensei que você fosse minha esposa, Marinalva.
— Esposa, Jaime! Não sou sua escrava.
Não sei se meu avô entendeu o recado ou, então, talvez por falta de coragem, declinou do embate, pois já sabia ter sido derrotado. Tanto é que, antes que vovó pensasse na lista de material, lá veio o marido, na tarde seguinte, com tintas, pincéis, telas e dois cavaletes. No entanto, não pense você que meu avô estava convencido daquilo.
Quase duas semanas depois, algumas dezenas de telas deixadas de lado, minha avó parecia inconformada com a falta de talento. Por que não desistia de vez? Um misto de angústia, desânimo e raiva se apoderou daquela mulher, que aparentava estar no limite. Gritou. Gritou mais alto. Outra vez. Justamente quando vovô voltava da rua.
— O que houve, meu amor?
— Jaime, sou um fracasso.
— Fracasso?
— Sim! Olha essa aberração.
O sujeito parou diante do quadro e, até hoje não sei se aquele gesto foi sincero ou pura arte de interpretação.
— Que lindo! É pra mim?
Dizem que aquele quadro salvou o casamento dos meus avós. E cresci duvidando desse enredo tão propagado na família. Mas eis que, recentemente, ouvi algo de uma amiga que me fez acreditar.
— Sabe, Roberta, cultura é essencial. Ela é capaz de coisas incríveis, pois forma e, melhor, corrige o nosso caráter, nos mostra outros caminhos. A cultura nos apresenta novas ideias, amplia o nosso pensamento sobre o mundo. Sem ela, o que seríamos? Nada mais do que olhos que se deixam cegar pela areia do deserto.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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