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Um porco em Marte

Marcelo tinha duas paixões na vida, nesta ordem: o Palmeiras e os romances de ficção científica. Era daqueles torcedores que, em dias de jogo, pintavam o rosto de verde e usavam máscara de porco. Se a entrega ao Palestra, ao Parmera, era irrestrita, já na science fiction, tinha um paladar bem mais exigente: apreciava algumas pitadas de Isaac Asimov, um leve aroma de Ursula le Guin, um punhadinho de Robert Heinlein, pouca coisa mais. Em suas papilas gustativas literárias, abria um espaço todo especial para as Crônicas Marcianas, de Ray Bradbury, e para os três romances iniciais da série Duna, de Frank Herbert – Duna, Filhos de Duna, O deus-imperador de Duna. Não curtia muito as continuações dessas obras-primas.

Mas havia nichos em ficção científica que Marcelo definitivamente detestava: romance planetário, space opera (ópera espacial) e seus subnichos, entre eles sword & sorcery (espada e feitiçaria), sword & planet (espada e planeta) e outros que tais. E, encabeçando a lista dos mais odiados, estavam os livros da série marciana do americano Edgar Rice Burroughs, mais conhecido por seu personagem Tarzan dos Macacos, este sim, inesquecível.

“Absurdo”, ele dizia sempre. “Um homem olha intensamente pra Marte, desejando estar ali. Depois adormece e, pa pum, acorda no planeta vermelho. Não há nada de científico nisso, é ficção, não ficção científica. Um romance planetário da pior espécie. Nem magia é, puro milagre”.

Tomava fôlego e prosseguia, sempre falando sozinho:

“E em Marte, ou Barsoom, não há nada do lancinante encontro de civilizações defasadas no espaço e no tempo, que torna inesquecíveis as crônicas marcianas de Bradbury. Nem chega a ser um romance de capa e espada, ou de sword & sorcery, é antes um faroeste que opõe caubóis, os mocinhos, a marcianos malvados, os índios, que levam uma surra. Argh!”

Certo dia, Marcelo preparou-se para mais uma festa no chiqueiro. Pintou o corpo de verde, não apenas o rosto, colocou sua máscara suína e entrou, todo lampeiro, no Allianz Parque. Tinha plena confiança em mais uma vitória do Verdão – mas viu seu time querido ser esmagado pelo esquadrão adversário. Quando, acabrunhado, saiu do estádio, estava tão fora dos eixos que não removeu a máscara suína e muito menos a pintura corporal. Enquanto se afastava do campo, olhou para cima, para Marte e, talvez em desafio aos deuses, que não haviam ajudado sua equipe de coração a alcançar mais uma vitória, desejou intensamente estar ali.

No momento seguinte, sentiu-se um peixe fora d’água (ou melhor, um porco fora do chiqueiro). Não conseguiu respirar a letal atmosfera, composta basicamente de gás carbônico; seu sangue ferveu, morreu em poucos segundos.

Em 2029, quando a nave da primeira expedição humana pousou em Marte, os pioneiros, protegidos em seus trajes espaciais, depararam-se com a carcaça ressequida de um animal que se assemelhava a um homem. Havia, porém, traços verdes no que havia sobrado de sua pele e, envolvendo sua caveira, algo que parecia uma máscara de porco. Era mais um enigma a ser acrescentado à lista de mistérios marcianos. Não havia leitores da série Barsoon na expedição exploradora, então ninguém construiu hipóteses delirantes sobre a presença daquele ser na desolação do planeta vermelho, sem proteção alguma, sem tanques de oxigênio ou traje de sobrevivência. E muito menos brasileiros capazes de identificar, nos restos do cadáver semidecomposto, o que havia sobrado de um infeliz palmeirense.

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