Uma das maiores decepções do professor universitário Agnaldo foi ver Luísa, sua única filha, se casar com Fabiano, nos idos de 1969. No entanto, tentou aparentar uma serenidade que não tinha diante de tamanho desgosto. O rapaz era policial civil na capital do país, e os tempos de perseguição política estavam ainda mais acirrados.
Agnaldo, apesar de não entrar para o confronto armado, não escondia sua repulsa à Ditadura Militar. E isso, não tardaria, chegaria aos ouvidos de alguém ligado ao governo, ainda mais porque o sujeito morava em Brasília. É bom atentar que a capital, ainda hoje um ovo, naqueles idos era menor do que o de codorna. Todo mundo se conhecia e, os que não diretamente, acabavam se topando na rua ou em algum evento.
Fabiano, mesmo que de não compactuasse com o sistema vigente, muito menos com o modus operandi de se livrar daqueles que eram contra as atrocidades cometidas pelos que estavam no poder, sabia que não era corajoso a ponto de expor seus pensamentos, ainda mais no ambiente policial. Ali, as pessoas tendiam, quase que por completo, a apoiar o combate do inimigo imaginário do comunismo. E praticamente todos acreditavam nessa ladainha, e aqueles que eram conscientes, não se permitiam a ser contrários ao mantra de que os ditos subversivos queriam fazer do Brasil um país socialista.
No ano seguinte, enquanto a Seleção Brasileira distraía parte da população, muitos cidadãos foram caçados pelos militares. Inúmeros desaparecidos, dezenas de emboscadas armadas pelas forças governamentais viravam manchetes como se fossem confrontos com terroristas. Se acontecia com gente graúda que nem Rubens Paiva no ano de 1971, imagine como era a coisa com os anônimos. E entre os desconhecidos do grande público se encontrava Agnaldo Santos Vieira, o nosso Agnaldo, sogro do policial civil Fabiano Pereira.
Aconteceu em um domingo, quando Brasília se tornava ainda mais deserta. Dois homens abordaram Agnaldo na saída da padaria. Pego de surpresa, o professor deixou cair o saquinho de leite, que, com o impacto na calçada da quadra 312, na Asa Norte, estourou.
— Professor, me dá aqui esses pães, antes que eles virem comida de passarinho.
Agnaldo entregou o saco de papel com seis pães para um dos sujeitos, enquanto o outro lhe apontava um revólver sob a jaqueta.
— Melhor não tentar nenhuma gracinha.
Não era assalto. Agnaldo nunca imaginou que fosse. Pensou na esposa, na filha e no neto, que acabara de nascer. A coragem não era uma das suas virtudes, mas, naquele instante, decidiu enfrentar o inevitável de modo digno. Não pediria clemência, mesmo porque sabia que de nada adiantaria. Manteria a dignidade até quando os nervos lhe permitissem.
Agnaldo foi levado para um local, que não conseguiu identificar, pois estava encapuzado. Ficou isolado em uma pequena sala de não mais de 4 metros quadrados. Apesar da tortura psicológica, não apanhou. Quer dizer, tomou dois ou três tapas na cara, o que ele entendeu se tratar de um tratamento diferenciado, haja vista os gritos de dor e horror no ambiente. Cada vez que entrava alguém no cubículo onde ficou, imaginava que iria levar choque, ter as unhas arrancadas, que enfiariam agulhas nos dedos. Por sorte, nada além do que aqueles dois ou três tabefes.
Dois dias depois, dois homens apareceram. Não eram os mesmos que o abordaram. Bem menos corpulentos, mas com faces marcadas pela maldade, eles observaram Agnaldo por breve momento, quando um deles disse:
— Tem medo de viajar de avião, professor?
— Nunca viajei de avião, senhor.
— Pois hoje você vai fazer a sua primeira viagem.
Agnaldo foi conduzido até uma base aérea, onde foi colocado em uma fila de aproximadamente 20 pessoas. Ele observou aqueles rostos assustados e imaginou que seriam levados para um presídio ou algo do tipo. Talvez expulsos do país. A tensão se fazia presente naqueles seres humanos sem voz.
Enquanto o grupo aguardava o comando para entrarem na aeronave, eis que um Fusca estacionou a poucos metros. Um homem de um metro e oitenta, cabelos aloirados e bigode desceu do veículo e, passos firmes, foi em direção ao que parecia o comandante daquela operação. Ele mostrou um papel e, após breve diálogo exaltado, o homem do Fusca foi até a fila, puxou Agnaldo pelo braço e sussurrou:
— Não fale nada, seu Agnaldo. Agora vire-se, que precisou algemar o senhor.
Cinco minutos depois, já distante da base aérea, Fabiano, enquanto dirigia, libertou o sogro das algemas.
— O que significa isso tudo?
— Seu Agnaldo, vamos tirá-lo do país.
— O quê? Vamos? Quem?
— Tenho um amigo que me ajudou a encontrar o senhor. E agora o senhor precisa sair do país.
— E a minha mulher? E a minha filha? E o meu neto?
— Todos vão ficar bem, eu prometo. Mas o senhor precisa sair por um tempo.
— Tempo? Quanto tempo?
— Não sei. Pelo menos até as coisas se acalmarem.
Agnaldo entendeu que Fabiano, o homem que não queria que se casasse com sua filha, havia lhe salvado de algo muito pior.
— Eles iriam me torturar?
— Não.
— E para onde iriam me levar? E para onde vão levar aquelas pessoas?
Um silêncio se instalou dentro do Fusca, até que Agnaldo insistiu:
— Diga, Fabiano! Pra onde?
— Aquele era o voo da morte.
— Voo da morte? O que isso significa, Fabiano?
— Iriam jogá-lo do avião enquanto sobrevoavam o Pantanal.
— Aquelas pessoas… Precisamos voltar, Fabiano!
— Não podemos, seu Agnaldo. Não podemos.
Agnaldo foi retirado do país a salvo. Carregou aquela dor por anos, que o consumiu. Nunca mais voltou ao Brasil. Teve um enfarto no dia 3 de julho de 1974. Ironicamente, quando a Seleção Brasileira tombava diante do Carrossel Holandês por 2 a 0 na Copa do Mundo.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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