Notibras

Uma história de família

Tia Nice era, nas palavras de mamãe, uma mulher arretada. E, por esse motivo, sempre quis ser igual a ela, ainda mais porque imaginava que arretada era algo do tipo linda. E isso titia era.

Quando estava com meus 12, 13 anos, meu pai me perguntou o que eu queria ser quando crescesse.

— Júlia, você quer ser médica, engenheira ou advogada?

— Quero ser que nem a tia Nice.

Minha mãe, que estava ao lado, ficou exasperada:

— Deixe de bobagem, menina! Pois tu quer ser quenga?

Quenga. O que era quenga? Pelo tom da voz de mamãe, devia ser algo do tipo ladrona. Ou seria feia? Não! Feia não era. Chata? Talvez minha mãe tivesse birra da irmã. Eu também tinha do Osvaldo, meu irmão caçula. O moleque era dois anos mais novo e queria mandar em mim. Vê se pode uma coisa dessas? Logo eu, que já tinha sido visitada pelas regras, e ele ainda mijava na cama.

Outro que parecia ter rixa com tia Nice era vovô, que vivia dizendo que a filha não saíra aos seus. Não saíra aos seus? O que isso significava exatamente. Na dúvida, perguntei para o Salomão, meu irmão mais velho.

— Tem certeza?

— Sim. Foi o que o vovô falou.

— Bem, isso é simples. O que ele quis dizer é que… Hum… Sabe, Júlia, eu sei, mas não tô alembrando.

Pensei em recorrer ao Osvaldo, mas desisti. E desde quando aquele mijão iria saber. O jeito foi perguntar para minha mãe.

— Quenga! Já falei que tua tia é quenga! E não me perturbe mais com essas perguntas, que tenho mais o que fazer.

Quenga, então, era a mesma coisa que não saíra aos seus. E isso acabou me causando um certo transtorno na escola, quando a professora de português mandou toda a turma escrever algumas palavras sobre alguém da família. O Vicente perguntou se podia falar do cachorro.

— Não, Vicente. Fale da sua mãe ou do seu pai.

Foi aí que aconteceu aquele silêncio na sala. É que o pai do Vicente estava preso porque tinha matado a mulher. Então, o Vicente nem tinha mais mãe. Quer dizer, minha mãe disse que ainta tinha, só que lá no Céu.

— Lá junto com as nuvens, mamãe?

— Com Deus, Júlia.

Bem, então, a mãe da Júlia está com Deus.

A professora parou diante do Vicente, que ficou com os olhos de cachoeira.

— Tá bom, Vicente! Escreva sobre o seu cachorro.

— O cachorro não é meu, professora.

— Não? E de quem é?

— Da Júlia.

Aí, a professora me perguntou se o Vicente poderia escrever uma história sobre o meu cachorro. Fiquei com pena do meu vizinho de rua e deixei.

Depois de todos terminarem, a professora passou na carteira pegando folha a folha. Toda orgulhasa, estiquei a mão e entreguei as minhas palavras, certa de que a professora iria adorar e me dar um dez. Todavia, parece que ela não gostou, pois aqui estou na direção da escola, enquanto meus pais estão conversando com diretora. O motivo? Hum, na verdade, até este momento não sei, mas desconfio que foi por causa das palavras que escrevi sobre tia Nice:

Quando crescer, quero ser que nem a minha tia Nice porque ela é quenga, que é a mesma coisa que não saíra aos seus.

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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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