Notibras

Uma lágrima

Sobre o sepulcro de minha carinhosa mãe.

E eu vivo ainda!? Nem sei como vivo!…
Gasto de dor o coração me anseia:
Sonho venturas de um melhor porvir,
Onde da morte só pavor campeia.

Lá meus anseios sob a lousa humilde
Dormem seu sono de silêncio eterno!
Mudos à dor, que me consome, e gasta.
Frios ao extremo de meu peito terno.

Ah! Despertá-los quem pudera? Quem?
Ah! campa… ah, campa! Que horror, meu Deus!
Por que tão breve — minha mãe querida,
— Roubaste, oh morte, destes braços meus?!!…

Oh! não sabias que ela era a harpa
Em cujas cordas eu cantava amores,
Que era ela a imagem do meu Deus na terra,
Vaso de incenso trescalando odores?!

Que era ela a vida, os horizontes lindos,
Farol noturno a me guiar p’ra os céus;
Bálsamo santo a serenar-me as dores,
Graça melíflua, que vem de Deus!

Que ela era a essência que se erguia branda
Fina, e mimosa de uma relva em flor!
Que era o alaúde do bom rei — profeta,
Cantando salmos de saudade, e dor!

Que era ela o encanto de meus tristes dias,
Era o conforto na aflição, na dor!
Que era ela a amiga, que velou-me a infância,
Que foi a guia desta vida em flor!

Que era o afeto, que eduquei cuidosa
Dentro do peito… que era a flor
Grata, mimosa a derramar perfumes,
Nos meus jardins de poesia, e amor!

Que era ela a harpa de doçura santa
Em que eu cantava divinal canção…
Era-me a ideia de Jeová na terra,
Era-me a vida que eu amava então!

Oh! minha mãe que idolatrei na terra,
Que amei na vida como se ama a Deus!
Hoje, entre os vivos te procuro — embalde!
Que a campa pesa sobre os restos teus!…

Como se apura moribunda chama
À hora extrema da existência sua:
Assim minha alma se apurou de afetos,
Gemeu de angústias pela angústia tua.

E não puderam minha dor, meu pranto,
Pranto sentido que jamais chorei,
Oh! não puderam te sustar a vida,
Que entre delírios para ti sonhei!…

E como a flor pelo rufão colhida
Vergada a haste, a se esfolhar no chão,
Eu vi fugir-lhe o derradeiro alento!
Oh! sim, eu vi… e não morri então!

Entanto amava-a, como se ama a vida,
E a minha eu dera para remir a sua…
Oh! Deus — por que o sacrifício oferto,
Não aceitou a onipotência tua!?!…

Vacila a mente nessa acerba hora
Entre a fé, e a descrença…oh! sim meu Deus!
Estua o peito, verga aflita a alma:
Tu me compreendes, tu nos vês dos céus.

Vacila, treme… mas na própria mágoa
Tu nos envias o chorar, Senhor;
Bendito sejas! que esse pranto acerbo,
É doce orvalho, que nos unge a dor.

Lá onde os anjos circundam, dá-lhe
Vida perene de imortal candura:
Por cada gota de meu triste pranto,
Dá-lhe de gozos divinal ventura.

E à triste filha, que saudosa geme,
Manda mais dores, mais pesada cruz;
Depois, reúne à sua mãe querida,
No seio imenso de infinita luz.

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