(Sarah Munck em diálogo com Cláudia Sampaio)
Você me fala de uma mulher
com chapéu na cabeça
a esperar coisas invisíveis
apesar do mundo inteiro
não caber ali
e de ela se fazer maior que o mundo
para ocupá-lo
Eu vejo uma mulher desnuda
com um pé cravado no chão
a domesticar presenças
onde surgem todos os infortúnios do dia
e onde vivem as agonias da noite
como se não bastassem
os magníficos chapéus
a entrelaçar as caraminholas
que perduram na face
Porque as mulheres são ínfimas
para gerenciar toda a existência
do mundo,
que racha a cabeça ao meio
como uma pedra bruta
lançada na piscina
vazia-esverdeada da vizinha
Então, penso: creio que estou
Viva,
apesar de sentir demasiado
mas não sentir nada,
e de não processar a dor de forma
adequada
por minha baixa sensibilidade
àquilo que me espeta
e minha forte comoção pelo que
machuca o outro
Por que as mulheres veem
a tristeza nascer
junto à vida que não puderam
escolher
e às barras de chumbo
que carregam nas costas
Por que as mulheres se acostumam
com a tristeza
para dar conta de toda uma
ancestralidade
e de tudo o que há de ser,
como deusas advindas,
retiradas do seio da madre
como um lírio da cor de todas as mulheres
Então, penso: estou viva,
sinto demasiado
e vivo toda a vida
Porque as mulheres sonham
apesar dos deuses infecundos,
sonham como um lírio
da cor de todas as mulheres.
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Sarah Munck, mineira de Juiz de Fora, professora do IF-Sudeste, escreve no Substack sarahmunck.substack.com, e é autora dos livros de poemas “O Diagnóstico do Espelho” e “Esquecemos os nomes dos pássaros”.
