Em outubro de 1993, poucos dias antes do banho fatal que levaria nossa mãe de forma implacável – a pneumonia e o enfisema andam de mãos dadas e tramam com o destino do tempo -, conversamos sobre as anotações que eu vinha fazendo ao longo dos anos.
Contei-lhe que eram pequenos registros de histórias, de fatos, lembranças soltas, fragmentadas, sobre a tribo do circo, sobre nós mesmos.
Ela achou bacana e com o entusiasmo de sempre desfiou um rosário de “pérolas” lapidadas pela vivência deles como nômades errantes. Hoje, eu poderia escrever até o fim da vida sobre histórias tão ricas, variadas e cheias de essência e humor.
Lá pelas duas da madrugada, nossa mãe lembrou-se de uma passagem que considero extremamente poética e delicada e que, sem ela saber, eu também já conhecia:
— O teu pai era um poeta, Beto! Um homem grande que via o mundo com os olhos de criança. Uma noite eu acordei no hotel, em Tupã, já era madrugada, e como ele não estava na cama, saí procurando por ele. Encontrei o Mário e o Divino no fundo do quintal muito agitados, dando gargalhadas. Achei, de início, que eles tinham tomado todas e estavam alegrinhos… brincadeira… você sabe que o teu pai não bebia – só eu e o Divino, né -; perto da mangueira pude ver uma espécie de nuvem brilhante que girava em círculos, ia e vinha. Fiquei intrigada e perguntei baixinho a ele o que seria aquilo?- Ele alisou o grosso bigode e me respondeu com prazer nos olhos:
— São vaga-lumes, Fia! Eles já estão treinadinho, viciados… toda noite, na mesma hora, o bando vem visitar a gente aqui no quintal… vaga-lumes são bichinhos muito frágeis. Os homens também. Os vaga-lumes nascem, brilham por um tempo mínimo e morrem. Os homens também. A principal diferença, além do raciocínio, é a saudade, a circulação, pois eles vão e voltam sempre… e a memória”.
Limpei as lágrimas do rosto de nossa mãe e contei-lhe sobre o episódio das formigas e do convite feito pelo pai naquela mesma época de Tupã para que, um dia, eu participasse das observações aos vaga-lumes com ele e o Divino. Nunca fui. Aos treze anos, achei que o velho tava doidão, coisas da maçonaria… Arrependo-me do fundo do coração.
O ano de 1993 foi como um acerto de contas através das lembranças e das narrativas de histórias com nossa mãe. Havíamos retornado a Florianópolis, depois de muitas andanças por São Paulo e interior – agora já sem o nosso pai e o Divino – mas com o tio Norico bastante doente morando com a gente. Tenho saudades do apartamento da avenida Madre Benvenuta, na Trindade, em frente ao Clube Paula Ramos.
Eu pedi demissão da rede Globo e o único projeto era trazer nossa mãe para morrer perto dos filhos e dos netos. O mano Mário alugou o apartamento para nós – no mesmo condomínio onde ele já morava com sua família – e, de certa forma, reunimos parte possível da tribo novamente.
A nossa mãe estava inspirada e queria contar todas as histórias; como se soubesse que o prazo dado pelo tempo a ela estava próximo. Por volta das três da madrugada tocou no que considero a história mais nebulosa e ainda não explicada totalmente na saga de Mário/Motinha e Nair/Nha’Fia, a do incêndio de nosso circo.
Pela primeira vez, após décadas, nossa mãe abriu o peito, criou coragem e desabafou:
— Olha, Beto, em 1961 nós chegamos com o circo na cidade de Tupã. Fomos bem-recebidos, teve uma grande festa nos meus 40 anos de idade, você deve se lembrar, né, apesar de pequenino. Tudo ia muito bem, a praça boa, circo lotado todas as noites e essa coisa legal que acontece quando tudo vai bem. Mas, numa manhã de segunda-feira, teu irmão Marinho saiu de dentro do circo correndo e entrou gritando, apavorado, que estava pegando fogo no circo. Estávamos em poucos, pois era dia de folga da companhia e muitos viajaram ou saíram para passear. Quando entramos no pavilhão, a metade do pano já estava tomada pelo fogo. Labaredas gigantes, tudo queimando. Como por Deus, de repente parecia que a cidade inteira estava ali com baldes d’agua, extintores, ajudando a apagar o incêndio. Foi trágico, dolorido, pois havíamos reformado o circo recentemente, estava um brinco de lindo, e o pano feito por nós – lembra, Beto?- estava quase todo destruído.
A essa altura era nossa mãe que limpava as lágrimas em meu rosto e eu – como não poderia deixar de ser – permaneci imóvel, calado. Perguntei-lhe pela milésima vez em nossas vidas sobre o que teria ocorrido. Desta vez ela não desconversou como em tantas outras e, olhando bem em meus olhos, falou em tom grave:
— Gilberto: a natureza humana é muito complicada, cheia de coisas que não dá para entender e muito menos explicar, sabe! Eu nunca aceitei o que aconteceu. A cidade nos amava, nos respeitava e nosso circo não tinha portas fechadas. Teu pai ajudava todo mundo, a igreja, a Casa das Crianças, o Rotary, o Lions, a Apae e já estava ligado à maçonaria desde a cidade de Birigui. A televisão ainda não tinha a força que tem hoje, e o circo era a alegria da cidade. Só pode ter sido coisa de política, sabe… eu não tenho outra explicação… ou então coisa de inveja, de despeito, sei lá! O fato é que quase queimaram nossos sonhos, nossa vida, mas tínhamos você e teu irmão e tivemos motivos e forças para recomeçar. E recomeçamos, lembra? com aquele espetáculo maravilhoso seguido de várias semanas com o circo cheio, plateia boa, e tudo ali, sem pano cobrindo, ao ar livre, só a noite e as estrelas cuidando de nós… sabe que pareciam mesmo os vaga-lumes do teu pai que se juntaram para iluminar o nosso circo? Porra, Beto! Agora eu fui fundo, né! Ah! Ah! Ah!
Aquela mulher era assim. Navegava da mais profunda tristeza à tiradas criativas de grande humor em segundos. Era a Nair/Nha’Fia de sempre; especial, terna e eterna; um ser de luz, como os vaga-lumes de nosso pai, sem dúvida.
Reconstruímos o circo com a ajuda da cidade.
Em 1964, com o golpe militar/financeiro/religioso no país, nossos pais compraram o Hotel Coimbra exatamente na cidade de Tupã, SP.
Vivemos ali por quatorze anos.
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Gilberto Motta, filho de Nair/Nhá Fia e Mário/Motinha, dois injustiçados da ditadura brasileira. Vive na Guarda do Embaú SC.
