Faltam-me asas
para te afastar do meu destino.
Raramente consigo apagar
o que foi moldado em fogo,
e que hoje repousa em cinzas frias.
Quem és tu, presença que me desatina?
Figura divina, ardente, misteriosa,
teu olhar é enigma,
teu toque é labirinto,
teu silêncio é vertigem.
Que segredo escondes sob tua pele?
Que tempestade provocas,
que marés conduzes,
que inevitavelmente me arrastam ao delírio?
Responde-me, sombra luminosa!
Quem agora ocupa o espaço
que outrora era meu abrigo?
Prefiro que o tempo te envolva em solidão,
pois tua ausência me dilacera,
um vazio imenso e cruel,
ao descobrir que aquele amor
foi apenas miragem,
que teus gestos eram máscaras,
que tua chama era apenas ilusão.
Agora tudo jaz consumado,
lançado ao esquecimento,
enquanto meu coração ainda guarda
as horas infinitas vividas,
os segredos ocultos,
os vestígios da chama
que um dia nos incendiou.
