Virgínia, rosto delicado, olhos nervosos, bela até, porém de maneira solitária e assombrada, como se carregasse fardo pesado, ainda mais para alguém que aparentava tamanha fragilidade. Isso, por outro ângulo, lhe conferia certa altivez, já que o azul das veias servia como aparato de nobreza.
— Anemia.
— Anemia?
— Regras. Implacáveis nessa situação.
— E o apetite não é dos melhores. O doutor acredita que não come quase nada?
— Carne?
— Nem ovo. Tem pena. Já falamos, insistimos, mas ela é turrona. Não cede.
— Feijão? Ervilha?
— Hum! Tinhosa do jeito que é, aceita apenas sopa. Diz que não quer engordar. O doutor já viu algo assim? Parece um palito, mas se vê da cintura grossa. Grossa tenho eu, que sou mãe de cinco. Essa aí, do jeito que vai, nem marido arruma.
Prostração, falta de ar, sibilância, alguns estertores, inchaço ao redor dos olhos, que despertavam rubros. Herança maldita de nascer mulher, quando o único propósito, além de servir, era parir. E pobre daquelas desprovidas de ancas largas.
— Qual é o propósito disso tudo, Virgínia?
— Estou doente, mamãe. O médico não disse?
— Por que não come?
— Falta-me apetite.
— Temo que o seu propósito seja outro, minha filha.
— Falta-me propósito.
— Pois deveria ter o que nos pertence. E rezo todos os dias para que você logo o perceba ou…
— Ou o quê, mamãe?
— Ou morro eu de desgosto.
Silêncio, que logo foi rompido por ordem da matriarca.
— Agora levante, que Augusto está lá embaixo preocupado.
— Augusto?
— Sim. Ande, que não é de bom tom fazer seu noivo esperar.
— Não quero me casar, mamãe.
— Hum! Não diga bobagem, Virgínia! Augusto é bom moço, de família influente.
— Que case com Larissa.
— Se sua irmã não tivesse apenas 11 anos, teria eu mesma dito para seu pai prometê-la ao rapaz. Não resta dúvida de que ela tenha mais juízo do que você.
— Pois eu me mato antes de me casar.
— Que se mate, então! Mas não envergonhe o nome do seu pai.
— A senhora me quer morta?
— Ande! Vamos! Que não tenho tempo pra tolices!
Sem alternativa, Virgínia aprontou-se e, finalmente, acompanhou a mãe até a sala no andar de baixo do casarão. Lá estavam o pai, os futuros sogros e o noivo, jovem de cabelos negros e olhos perdidos. Poucos anos mais velho do que Virgínia, apesar do rosto assustado de menino.
Ao fim de um ano, aqueles quase imberbes foram empurrados para o altar. Mal se conheciam, apesar dos encontros semanais, mais para acertos dos pais do que troca de palavras entre os dois.
— Mamãe, mas eu nem conheço direito o Augusto.
— Não se preocupe com isso, Virgínia. Você vai ter a vida inteira para conhecer o seu marido.
Não quis casar, casou. Não quis filhos, teve quatro. A cintura engrossou. Foi infeliz, apesar do sorriso de resignação.
……………………
Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
Compre aqui
https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho
