Diante dos pais, Emerson sentiu vontade de mentir, mas um resquício de dignidade o impediu. Não por pudor, a questão era a inabilidade de inventar histórias perante a perspicácia de dona Luzia, a mãe. Trilhou o caminho das palavras parcas, ambíguas, não contada com todas as letras, mas, apesar do pouco dito, não foi capaz de evitar o óbvio.
— Tá mentindo pra sua mãe?
— Não, mamãe.
— Hum! Tu acha mesmo que nasci ontem?
— Não, mamãe, é que…
— Olha aqui, Emerson Pereira dos Santos, quando o Tarzan tentou escapar pendurado no cipó, tô aqui com a tanga dele na mão.
Sem alternativa, o sujeito resolveu tentar outra abordagem.
— Vida difícil, mamãe. Complicada demais.
— Hum! Vida corrida, vida ingrata, vida difícil, tão difícil, que, caso a gente pare, ela atropela quem estiver de bobeira na pista.
Palavras incompletas, frases cortadas, as artimanhas não funcionavam com dona Luzia, que era catedrática em assuntos do cotidiano. A mulher, olhos atentos, sabia onde colocar as vírgulas necessárias nas curvas da vida.
Não dava para competir com tamanha sabedoria popular. Que ficasse mudo antes que fosse tarde demais para não ser desossado que nem frango. E, assim, Emerson se fez de desentendido para não ser devorado que nem lagartixa. Fossem quais problemas enfrentasse, que procurasse resolvê-los sozinho e parasse de tentar terceirizá-los com outrem.
— Bença, mamãe. Tenho que ir. Marquei de encontrar a Ritinha.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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