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Vovó e o compromisso com o Elvis

Vovó era fã do Elvis. Aliás, fã é eufemismo diante da paixão que a arrebatou ainda na adolescência, quando ela se deparou pela primeira vez com aquela figura rebolativa, de cabelos negros, profundos olhos azuis e voz rouca e aveludada. E só não se casou com o gajo por uma sequência de impedimentos.

Bem, o primeiro foi a concorrência desleal, já que o rapazola era o desejo de milhões de outras moçoilas, muitas com ímpeto atrevido para a época. Sem contar a distância, já que vovó morava em Luziânia, cidade próxima à Brasília, que naquela época nem existia.

A despeito desses pormenores, minha avó me confidenciou que, após uma noite de suadouro, acordou decidida a rumar para os Estados Unidos. Na verdade, ela nem sabia direito para onde era, a não ser que ficava na parte de cima do mapa-múndi.

— Sabe, Douglas, eu não tinha ideia de como aquilo era longe. Mesmo assim, imaginei que, apertando o passo, chegaria a tempo do Natal.

— Vovó, mas são quase oito mil quilômetros.

— Ih, é longe demais. Mas naquela época as minhas pernas eram fortes e serelepes. Rapidinho eu chegava.

Nem quis entrar no mérito de que é impossível ir a pé até os Estados Unidos, pois não seria eu que iria destruir o sonho da minha avó.

— Mas por que a senhora desistiu?

— Sabe, Douglas, apesar do respeito que tinha pelo meu pai, não era o fato dele me proibir de sair de casa para me encontrar com um sujeito de outro país que iria me impedir. Estava decidida, e mamãe sabia. Mas, justamente no dia da minha partida, ela me disse que estava grávida.

— Grávida?

— Sim. Grávida. Grávida do meu irmão caçula, o Jorge.

— Então a senhora não se casou com o Elvis por causa do seu irmão Jorge?

— Não por ele, que ele nem tinha nascido, e eu não o conhecia ainda. Não fui simplesmente porque mamãe vivia nauseada quando estava buchuda.

Seis meses após meu tio-avô Jorge vir ao mundo, minha avó, por acaso, se deparou com o futuro marido. Vovô era um tipo cheio de galhardia e, talvez por isso, se sentia que nem pavão rodeado de garotas admiradas.

A princípio, minha avó tentou evitar qualquer envolvimento com aquele homem, ainda mais porque ela tinha firmado compromisso, mesmo que unilateral, com o astro do rock and roll. Seja como for, após algum tempo, ela cedeu.

— Sabe, Douglas, seu avô e eu nos casamos em maio de 1960, quando Brasília havia acabado de se tornar capital. Eu amei o meu marido durante todo o nosso casamento, até que ele se foi no ano passado. Mas ainda carrego um sentimento de culpa.

— Culpa? Culpa por quê, vovó?

— Nunca tive a oportunidade de falar pro Elvis por que eu o troquei por outro.

Minha avó faleceu dois dias após essa nossa última conversa. Já era esperado, mas nunca estamos preparados para perder alguém tão próximo. O Elvis realmente perdeu a oportunidade de conhecê-la.

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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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