Sabe aquelas histórias que você ouve, e a razão tenta convencê-lo de que não passa de lorota, mas a prudência, que muita gente chama de cagaço, diz que é melhor não duvidar? Pois é algo do tipo que me veio à lembrança logo depois do Zé-Sem-Pé surgir do nada aqui no meu humilde apartamento na Asa Norte, em Brasília. Isso após quase uma década depois da nossa última conversa, ocorrida, salvo engano, nas areias de Copacabana.
Antes que você me questione sobre possível ausência de um ou dois pés do meu colega, já lhe afirmo que o apelido tem outra conotação. É que Zé-Sem-Pé-Nem-Cabeça ficaria deveras comprido. E creio até que foi dona Laurentina a responsável por essa, digamos, providencial poda de palavras.
Quando o interfone tocou, Fernanda, a porteira, me disse que um tal José Venâncio estaria querendo subir.
— Quem?
— José Venâncio, Júlio.
— Não conheço ninguém com esse nome. Tem certeza de que é pra mim mesmo?
— Tenho. Ele disse que queria falar com o Julinho de Copa. Até estranhei, mas como sei que você é do Rio, imaginei que fosse você mesmo. Aí, ele falou: Júlio César da Silva Neto. Ou seja, só pode ser você mesmo, né, Júlio?!
Para não dar ainda mais trabalho para a funcionária do condomínio, desci pelas escadas, pois o elevador estava demorando. Mal pisei na portaria, levei míseros milésimos de segundo para reconhecer o Zé-Sem-Pé atrás da barba bem aparada.
— Não acredito! É tu mesmo, Zé-Sem-Pé?
Quase corri ao encontro do meu antigo parceiro de peladas na praia. Ele e eu nos abraçamos e, então, subimos para o meu apartamento.
Após quase uma hora de lembranças dos nossos tempos de Rio de Janeiro, eis que ele me disse o verdadeiro motivo da sua vinda.
— Um leão fugiu de um circo aqui perto. Em Padre Bernardo. Conhece?
— Conheço. Quer dizer, é um município de Goiás, colado ao Distrito Federal. Mas um leão? Um leão de verdade? Tipo aqueles da selva?
— Savana.
— O quê?
— Leões vivem nas savanas africanas.
— Nem sabia.
— Bem, há leões nas florestas da Índia, mas o nosso leão é mesmo africano.
— Nosso leão?
— Modo de falar.
— Zé-Sem-Pé, você quer dizer que saiu do Rio só pra me avisar que um leão fugiu de um circo aqui perto?
— Claro que não, né, Julinho! Aproveitei que estava aqui perto e me lembrei de que você havia se mudado pra cá. Pensei comigo: por onde anda o Julinho? Será que é fácil encontrá-lo?
— Tá. Mas como me encontrou?
— Bem, tenho meus contatos, meu amigo.
— Contatos? Que tipo de contato?
— Prefiro mantê-los no anonimato. Não que não confie em você, claro. Mas não sei como é que esse povo poderia reagir. A gente nunca sabe exatamente o que essa gente faz de verdade.
Observei aquele sorriso cínico do meu conhecido. O que será que ele queria dizer exatamente com aquilo. Foi aí que as palavras da minha finada avó, dona Lídia, me chegaram como luz que ofusca: “Julinho, esse seu amigo, esse tal Zé-Sem-Pé fala cada besteira. Mas não duvide. Jamais duvide!”
Como já estava passando da hora do almoço, convidei o Zé-Sem-Pé para comer alguma coisa no restaurante aqui perto. Pedimos o mesmo prato, bife com fritas e acompanhamento. Fomos atendidos pelo Carlos, o garçom mais antigo do estabelecimento.
— Boa tarde, Júlio!
— Boa tarde, Carlos! Este aqui é o meu amigo lá do Rio, o Zé…
— José Venâncio, seu criado.
O meu colega apertou firmemente a mão do Carlos.
— O que vocês vão pedir?
— Pra mim, o de sempre, Carlos.
— E o que é esse de sempre, Julinho?
— Bife com fritas, arroz, feijão e salada.
— Hum! Vou pedir o mesmo. Mas, Carlos, por favor, apenas uma leve selada no meu bife. E a minha salada pode acrescentar na do Julinho.
— Pode deixar.
Antes que o garçom se virasse, fiz questão de lembrá-lo de que o meu bife era bem-passado.
— Sei disso, Júlio. Quase esturricando.
Quando os pratos chegaram, notei o olhar de desprezo do Zé-Sem-Pé sobre a minha refeição. Ele pegou os talheres e cortou o primeiro pedaço do seu bife, o que fez que aquele sumo vermelho escorresse. Levou-o aos lábios e, enquanto mastigava, sorriu.
— Julinho, um homem precisa de carne pra enfrentar outro homem, a fera ou o próprio Demônio.
Tentei disfarçar o meu incômodo com aquelas palavras. Não sei se consegui, mesmo porque evitei encarar aquele quase desconhecido à minha frente. Por sorte, logo depois de pagar a conta, que o Zé-Sem-Pé negou veementemente que eu tocasse na minha carteira, ele disse que precisaria ir, mas que, não tardaria, mandaria notícias.
Bem, isso foi há dois meses e, desde então, não dormia direito. Todavia, o pior aconteceu, quando fui convencido por um colega do trabalho, o Campos, a passar um final de semana numa chácara em Padre Bernardo.
— Churrasco, Júlio! A galera toda vai!
Sem desculpas de última hora, fomos para a tal roça. O ambiente estava muito agradável, não vou mentir. E, quando a noite chegou, os grupos se dividiram nos quartos da casa.
Nem me lembro do momento exato que o sono me pegou, simplesmente adormeci. Mas eis que, quando a madrugada avançou, um barulho estranho começou a me incomodar. Sentei na cama e tentei decifrar o que era aquilo. Foi então que cutuquei o Campos, que roncava num colchão ao lado.
— O que é, Júlio?
— Tá ouvindo?
— Ouvindo o quê? Vá dormir.
— Olha! Ouviu?
— Júlio, por favor, me deixa dormir.
— Mas você ouviu?
— Ouvi o quê, Júlio?
— Um leão. Parece um leão.
— Ah, Júlio, dorme, que a cachaça evapora.
Não sei que cara o meu colega fez, pois estava escuro, mas virou-se e voltou a dormir. E aqui estou, no meu apartamento, luzes apagadas, tentando sobreviver a mais uma noite na ânsia de que o Zé-Sem-Pé retorne para que tudo isso acabe de uma vez por todas.
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Eduardo Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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