Imaginação é bicho muito perigoso. Taí Dom Quixote, personagem do escritor espanhol Miguel de Cervantes, que não me deixa mentir. Taí Manuel, personagem meu, a obrigar-me ao mesmo compromisso com a verdade.
Manuel sentia orgulho em ser o mauzão, ou, como seus compatriotas lusos diziam, o mau na fita. O físico, é verdade, não ajudava: baixinho, franzino, parecia não ter forças para fazer mal a uma mosca. Mas tinha, e fazia (não a moscas, ela até que escapavam impunes; a outros animais, de preferência da espécie humana).
Ele cresceu chutando cachorros e gatos na rua e, sobretudo, tacando pedras nos moleques da turma. Projéteis pequenos, do contrário entraria na porrada, mas que machucavam. Na juventude, as pedras ficaram maiores e os lançamentos, quase letais. Os alvos também mudaram: agora, qualquer um que caminhasse, distraído, por um trecho deserto. Ele se via como um Davi do mal investindo contra Golias incautos; chegou a enviar alguns passantes para o hospital.
Manuel, porém, queria mais, ansiava por matar. Em sua imaginação, via-se como um assassino em série, um serial killer a semear cadáveres pelas ruas da cidade. Via-se também transfigurado, o corpo coberto por uma espécie de couraça espinhosa e impenetrável. Imaginava-se como uma espécie de Godzila em miniatura, a investir não contra Tóquio, mas contra os habitantes de sua cidadezinha.
Certa noite, o mau na fita jogou uma pedra contra um idoso, acertando-o na testa. O velho caiu por terra, o rosto coberto de sangue. “Uauauauaua!”. Manuel emitiu o que julgava ser uma risada exultante de monstro, finalmente ceifara uma vida. “Pena que ninguém tenha assistido a meu triunfo”, pensou.
Duplo engano: o veterano estava apenas ferido, embora gravemente, e uma pessoa havia testemunhado a coisa. Ela chamou o socorro médico e a polícia. Manuel foi encontrado ainda no local, pois relutava em deixar o cenário de sua conquista.
Confiante em sua couraça impenetrável de Godzila, Manuel investiu contra os meganhas, rosnando. Foi abatido por uma saraivada de tiros. A rigor, a causa mortis não foram os projéteis, mas, como afirmado no início do texto, sua imaginação, bicho mais que perigoso.


Adoro os contos do Cadu Matos. Realismo mágico contemporâneo de primeira.
Cadu, delícia de ler e mergulhar com o “valentão” transmutando um Godizila. Realismo mágico onde o absurdo épide ser tão concreto quanto as balas da saraivada de inal. Excelente!