Pedras

Eduardo Martínez
3 minutos de leitura
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Imaginação é bicho muito perigoso. Taí Dom Quixote, personagem do escritor espanhol Miguel de Cervantes, que não me deixa mentir. Taí Manuel, personagem meu, a obrigar-me ao mesmo compromisso com a verdade.

Manuel sentia orgulho em ser o mauzão, ou, como seus compatriotas lusos diziam, o mau na fita. O físico, é verdade, não ajudava: baixinho, franzino, parecia não ter forças para fazer mal a uma mosca. Mas tinha, e fazia (não a moscas, ela até que escapavam impunes; a outros animais, de preferência da espécie humana).

Ele cresceu chutando cachorros e gatos na rua e, sobretudo, tacando pedras nos moleques da turma. Projéteis pequenos, do contrário entraria na porrada, mas que machucavam. Na juventude, as pedras ficaram maiores e os lançamentos, quase letais. Os alvos também mudaram: agora, qualquer um que caminhasse, distraído, por um trecho deserto. Ele se via como um Davi do mal investindo contra Golias incautos; chegou a enviar alguns passantes para o hospital.

Manuel, porém, queria mais, ansiava por matar. Em sua imaginação, via-se como um assassino em série, um serial killer a semear cadáveres pelas ruas da cidade. Via-se também transfigurado, o corpo coberto por uma espécie de couraça espinhosa e impenetrável. Imaginava-se como uma espécie de Godzila em miniatura, a investir não contra Tóquio, mas contra os habitantes de sua cidadezinha.

Certa noite, o mau na fita jogou uma pedra contra um idoso, acertando-o na testa. O velho caiu por terra, o rosto coberto de sangue. “Uauauauaua!”. Manuel emitiu o que julgava ser uma risada exultante de monstro, finalmente ceifara uma vida. “Pena que ninguém tenha assistido a meu triunfo”, pensou.

Duplo engano: o veterano estava apenas ferido, embora gravemente, e uma pessoa havia testemunhado a coisa. Ela chamou o socorro médico e a polícia. Manuel foi encontrado ainda no local, pois relutava em deixar o cenário de sua conquista.

Confiante em sua couraça impenetrável de Godzila, Manuel investiu contra os meganhas, rosnando. Foi abatido por uma saraivada de tiros. A rigor, a causa mortis não foram os projéteis, mas, como afirmado no início do texto, sua imaginação, bicho mais que perigoso.

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