(Para ser lido em um jardim)
Conta uma história antiga que Fragrância era tão ciumenta que não se conformava com a admiração que as pessoas dispensavam à beleza das flores, atribuindo erroneamente a elas o cheiro maravilhoso que exalam. Fragrância acreditava que a beleza da flor era fruto de seu aroma e não o contrário. Para ela, uma flor só é bela por causa de sua presença fluida, invisível e de nuanças diferentes para cada um dos botões que se abrem.
Um dia, uma jovem cega entrou no jardim e ficou por longo tempo inspirando o aroma maravilhoso das flores. Havia no jardim, rosas, lavandas, jasmins e gardênias. Alheia à deficiência da jovem, Fragrância notou que a beleza das flores não era objeto de admiração. A jovem apenas inspirava o ar sentindo os aromas na atmosfera ao redor.
E pela primeira vez, Fragrância ficou feliz.
No entorno, as abelhas, sem serem percebidas, faziam sua parte, polinizando e dando seguimento à vida.
Em breve tempo Fragrância se vai e as flores murcham. Vaidade de flor.

