Às vezes, o que faz falta não é a pessoa, mas aquilo que você imaginou que poderia viver com ela.
Uma das coisas que mais aparecem nos atendimentos quando alguém está tentando se desprender de uma relação é a dúvida: “Se eu ainda sinto tanta saudade, será que eu realmente deveria ter ido embora?”. E eu entendo essa confusão, porque a saudade tem mesmo esse poder de mexer com a nossa percepção. Ela pega alguns momentos bons, coloca uma luz sobre eles e, quase sem perceber, vai apagando da memória tudo aquilo que também fez você sofrer.
A pessoa lembra do abraço, da conversa até tarde, da viagem, da música que os dois gostavam, daquele dia em que parecia que finalmente tinha encontrado alguém. Só que nem sempre lembra da ansiedade esperando uma mensagem, da sensação de estar sempre tentando entender o que o outro queria, das vezes em que precisou engolir o que sentia para não provocar uma discussão ou do quanto aquela relação foi fazendo com que ela se afastasse de si mesma.
É por isso que eu gosto de fazer uma pergunta quando alguém me diz que está com muita saudade: “Você sente falta da pessoa que ela realmente era ou da pessoa que você esperava que ela se tornasse?”
Parece uma pergunta simples, mas muitas vezes ela abre uma porta importante.
Porque nós não nos apegamos apenas às pessoas. Nos apegamos também às possibilidades. Àquilo que poderia ter sido. Ao relacionamento que imaginamos que ainda poderia melhorar. À promessa que nunca foi feita, mas que, de alguma maneira, continuamos esperando.
E talvez seja justamente isso que torne alguns términos tão difíceis.
Você não está apenas se despedindo de alguém. Está se despedindo de uma expectativa.
Do futuro que imaginou. Da família que talvez construíssem. Dos planos que ficaram pelo caminho. Da esperança de que, se você tivesse mais paciência, se falasse de outra maneira, se entendesse melhor o outro, se esperasse mais um pouco, alguma coisa finalmente mudaria.
Só que existe um problema em viver preso ao “e se”.
Enquanto você olha para aquilo que poderia ter sido, deixa de olhar para aquilo que foi.
E não estou dizendo que uma relação precisa ter sido ruim para terminar. Às vezes existiu amor. Existiram momentos muito bons. Existiu uma história importante. E, ainda assim, aquela relação deixou de fazer sentido.
Isso também acontece.
Nem todo amor precisa terminar em ódio. Nem toda saudade significa que você tomou a decisão errada. E sentir falta de alguém não significa que essa pessoa precise voltar para a sua vida.
Saudade é sentimento. Não é orientação.
Você pode sentir saudade e não procurar. Pode amar e não voltar. Pode lembrar com carinho e, ao mesmo tempo, reconhecer que aquela relação não te fazia bem. Pode até desejar que a pessoa esteja bem sem querer continuar fazendo parte da vida dela.
O problema começa quando a saudade vira justificativa para voltar sempre ao mesmo lugar.
E aí eu acho que vale uma observação muito honesta: quando a vontade de voltar aparece, tente não olhar somente para o que você sente falta. Lembre também de como você se sentia naquela relação. Quem você era naquela época? Você conseguia ser você mesma? Tinha espaço para falar? Era ouvida? Existia reciprocidade? Você se sentia escolhida ou passava boa parte do tempo tentando ser escolhida?
Essas respostas dizem muito mais do que a saudade sozinha.
E se você perceber que continua presa a uma relação mesmo sabendo racionalmente que ela terminou, talvez exista algo ali que precise ser compreendido com mais profundidade. Às vezes não é apenas sobre aquela pessoa. Pode ser sobre abandono, rejeição, medo de ficar sozinha, necessidade de aprovação ou sobre uma antiga dificuldade de acreditar que você pode ser amada sem precisar se esforçar o tempo inteiro para merecer isso.
É justamente nesse ponto que a terapia pode ajudar. Não para convencer você a esquecer alguém, nem para dizer se deve ou não voltar. Mas para ajudar a entender por que determinada relação ainda ocupa tanto espaço dentro de você e, principalmente, para que a sua próxima escolha não seja feita apenas para aliviar a dor da falta.
Porque voltar só para não sentir saudade pode aliviar por alguns dias. Mas depois você pode estar novamente diante da mesma dor que tentou evitar.
Talvez seguir em frente não seja deixar de sentir. Talvez seja aprender a sentir sem transformar a saudade em decisão.
E, quando essa saudade aparecer novamente, antes de perguntar “será que eu deveria voltar?”, experimente perguntar a si mesma: “Se eu encontrasse essa pessoa hoje, exatamente como ela era, sem mudar nada e sem acrescentar aquilo que eu gostaria que ela fosse, eu escolheria viver aquela história novamente?”
A resposta pode ser difícil. Mas pode ser também o começo de uma libertação.
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Marina Dutra – Terapeuta Integrativa
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