Conheça a história, os desafios e o legado das duas variedades de Collie

Eduardo Martínez
6 minutos de leitura
Leonardo Bernar - Foto Francisco Filipino

Ele já foi a estrela mais brilhante de Hollywood, um herói das telas de cinema e o companheiro mais cobiçado pelas famílias ao redor do globo. O Rough Collie (Collie de pelo longo) e o seu irmão de sangue, o Smooth Collie (Collie de pelo curto), formam uma família canina fascinante que carrega em suas origens a névoa das terras escocesas. Conhecido mundialmente através da inesquecível personagem Lassie, do livro “A Força do Coração”, este canino transcendeu o papel de mero pastor para se tornar um ícone cultural da lealdade e da inteligência.

Embora a origem exata permaneça envolta em mistério, sabe-se com certeza que estes caninos imponentes descendem de antigos cães pastores. Durante séculos, as variedades de Collie viveram de forma anônima, sendo completamente desconhecidas fora de sua terra natal. Nas montanhas isoladas, eles desenvolveram suas habilidades multifuncionais, atuando não apenas como pastores altamente eficientes, mas também como destemidos cães salva-vidas e excelentes guias e guardas para o gado.

A árvore genealógica dessas linhagens é uma rica tapeçaria que une a força da variação escocesa à agilidade da variação galesa. Enquanto os ancestrais da Escócia eram cães grandes, fortes e agressivos — ideais para enfrentar as duras condições das terras altas —, os parentes do País de Gales eram menores, extremamente ágeis e dotados de um temperamento dócil e amigável. O cruzamento dessas linhagens com cães pastores ingleses deu origem a uma mistura única de variedades menores e com pelagens visivelmente mais compridas.

Com a chegada da Revolução Industrial, o destino do Collie mudou drasticamente à medida que o interesse dos criadores se voltou para a estética. Em busca de um visual mais aristocrático e fashionista, a raça foi cruzada com o Borzoi, o galgo russo. Essa mistura estratégica moldou a aparência que conhecemos hoje, conferindo ao cão aquela cabeça de formato “nobre” e o focinho alongado e elegante que se tornou a marca registrada e o grande charme tanto da versão de pelo longo quanto da versão de pelo curto atual.

Com o passar do tempo e o avanço dos programas de criação, os Collies foram separados em raças distintas com base no tipo de pelagem. O Rough Collie, com seus fios longos e exuberantes, acabou alcançando uma popularidade muito maior do que o seu irmão de pelo curto, o Smooth Collie. Apesar de compartilharem exatamente a mesma herança genética, o mesmo padrão estrutural e o mesmo temperamento, a imponência da pelagem longa garantiu ao Rough o status de favorito entre os amantes de cães.

Visualmente, ambas as vertentes impressionam pelo porte atlético e pela elegância natural de seus movimentos. Um exemplar adulto e saudável pode chegar a pesar até 29 kg e atingir uma altura de 61 cm na cernelha. Enquanto a pelagem icônica do Rough é extremamente densa e exige cuidados constantes, o Smooth Collie exibe um pelo curto, liso e de fácil manutenção, embora ambas as variedades se apresentem em uma belíssima paleta de cores.

Para além da beleza física, é o temperamento desses cães que realmente rouba os corações de quem convive com eles. Eles são amplamente reconhecidos como animais dotados de uma inteligência impressionante e de um senso de direção fora do comum. Os especialistas descrevem o comportamento tanto do pelo longo quanto do pelo curto como sensitivo, dócil, extremamente leal aos seus tutores e dotado de bons modos naturais, o que torna o seu adestramento uma tarefa simples e prazerosa.

No entanto, apesar de todas as suas qualidades extraordinárias e de seu passado de glória na cultura pop, a raça enfrenta um cenário preocupante na atualidade. O declínio no interesse do público geral tem colocado o futuro desses animais em xeque. A falta de novos tutores dispostos a acolher a raça tem gerado um alerta entre os principais clubes de criadores e defensores dos animais pelo mundo, afetando de forma severa a linhagem.

Os números mais recentes acendem um sinal vermelho bastante claro para a sobrevivência da linhagem em sua terra de origem. No ano de 2022, registraram-se apenas 500 novos nascimentos de filhotes de Rough Collie em todo o Reino Unido. Este dado alarmante representa uma queda expressiva de 25% na taxa de natalidade quando comparado diretamente ao ano anterior, evidenciando o sumiço gradual do cão nos lares britânicos.

Se essa tendência de desinteresse e a queda contínua nos registros de novos cães persistirem nos próximos anos, os Collies poderão entrar oficialmente em risco de extinção. Aquela mesma raça que um dia simbolizou a bravura e a amizade nas telas corre agora o risco de se tornar apenas uma lembrança nostálgica, reforçando a urgência de redescobrirmos o valor e o encanto desses eternos heróis de quatro patas, seja na versão peluda ou de pelo curto.

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