Ernesto sentia conforto na solidão. Não era bruto com parentes, amigos, conhecidos, desconhecidos e até visitas de última hora. A todos recebia com um quinhão de condescendência. Todavia, era na solidão que se sentia confortável.
Confortável para agir do seu jeito, conversar do seu jeito com as plantas e os objetos que, vez ou outra, se tornavam caros. Um colar, um relógio de bolso antigo, uma caneta com o nome do saudoso avô grafado, uma onça-pintada de pano, presente de sua filha Mariana.
Sentado em uma carcomida cadeira de balanço na sacada do minúsculo apartamento, Ernesto preferia as horas em que a cidade adormecia. Não por completo. Era quando as coisas aconteciam, mesmo que camufladas pela escuridão.
Xícara de paciência nas mãos, Ernesto roubava-lhe um pouco do calor. Não muito. O frio lhe dava a certeza de que a vida não é perene. Bebericava de tempos em tempos, tragava o cachimbo teimoso que insistia em apagar.
— Era só o que me faltava, Joana.
Ernesto fingiu rigidez, como se esperasse ao menos um breve aceno das folhas da samambaia. Nada. O vento se recolhera cedo.
— Bem que aquela dona da floricultura me disse que orquídeas são falantes. Geniosas, é verdade, mas nunca nos deixam soltar lamúrias sem respostas. Pelo menos me escuta, Joana? Hum! Que as rosas não falam, isso sempre soube. Mas samambaias? Rosas, Joana, ao contrário de você, dão flores.
O homem esboçou um sorriso discreto. Monalisa? Puro cinismo da autossuficiência.
— E você, Gerânio? Quando vai estancar tanto gerundismo? Sei, sei… Coisa de família.
O cachimbo firmou, a fumaça tomou conta do local, mas logo se esvaiu. Joana pareceu ganhar um tanto de vida. Brisa, leve brisa. Ainda assim, brisa.
……………………
Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
Compre aqui
https://www.joanineditora.com.br/57-contos-e-cronicas-por-um-autor-muito-velho

