O capital social de ter alguém para ligar às 23h

Eduardo Martínez
1 minutos de leitura
Emanuelle Nascimento - Foto Francisco Filipino

Existe um tipo de riqueza que não aparece no extrato bancário.

É saber para quem ligar às 23h.

Não é pouca coisa.

É uma riqueza silenciosa.

A pessoa que atende.

A amiga que diz “fala”.

O irmão que pergunta onde você está.

O amigo que manda “me liga quando puder”.

Em uma sociedade obcecada por capital financeiro, esquecemos que existem outras formas de riqueza.

Bourdieu chamou atenção para o capital social: redes de relações que podem produzir recursos, reconhecimento e possibilidades.

Mas talvez exista uma dimensão afetiva disso que as estatísticas não capturam.

Ter alguém.

Não alguém que resolva tudo.

Alguém que fique.

Isso é patrimônio.

É segurança.

É memória.

É pertencimento.

Talvez algumas pessoas sejam milionárias em relações e não saibam.

Porque confundimos riqueza com aquilo que pode ser contabilizado.

Mas ninguém coloca na declaração do imposto de renda:

“Tenho três pessoas que me buscariam no hospital.”

“Tenho uma amiga que conhece todas as minhas versões.”

“Tenho alguém que atende quando estou mal.”

Não há campo para isso.

Uma pena.

Porque talvez seja justamente aí que esteja uma das formas mais importantes de riqueza humana.

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