Lula conhece o palanque como pouca gente na política brasileira e conhece, sobretudo, o valor de escolher um adversário. Em 2010, no auge de sua popularidade, não escondia o desejo de reduzir o espaço daqueles que haviam passado anos fazendo oposição ao seu governo e chegou a dizer que era preciso “extirpar o DEM da política brasileira”. Naquela eleição, nomes importantes da oposição acabaram derrotados, entre eles Heráclito Fortes, no Piauí, e Marco Maciel, em Pernambuco. O DEM já nem existe com aquele nome, a política brasileira mudou bastante desde então, mas alguma coisa daquele Lula reapareceu na noite de quarta-feira, 16, em Ceilândia.
Não foi apenas o presidente que desembarcou para pedir votos a Leandro Grass. Apareceu também o velho Lula de campanha, aquele que escolhe o terreno, identifica a fragilidade do adversário e não costuma economizar quando decide entrar numa briga. Desta vez encontrou o BRB, provavelmente a ferida mais exposta do grupo político de Celina Leão, e foi diretamente nela ao chamar a governadora de cínica e mentirosa, responsabilizar Ibaneis Rocha pela crise do banco, associar o ex-governador a Daniel Vorcaro e avançar para referências a prisão e dinheiro roubado. Tudo isso dito num palanque, no calor de uma eleição, embora Ibaneis não responda a ação relacionada ao caso BRB-Master.
Nem precisava ir tão longe. O escândalo do BRB já oferece material suficiente para qualquer oposição trabalhar durante uma campanha inteira sem antecipar condenações. Há operações bilionárias sob investigação, funcionários afastados, relatório do Banco Central indicando perdas potenciais que podem chegar a R$ 11,4 bilhões, balanços ainda não publicados e uma operação de até R$ 6,6 bilhões sendo buscada para reforçar o banco. Sobram perguntas, faltam respostas e, no meio disso, surgiram ainda mensagens atribuídas a Vorcaro que colocaram sob discussão a versão de Celina de que teria permanecido fora das negociações envolvendo a tentativa de aquisição do Master.
Lula encontrou, portanto, terreno fértil. Celina lidera a disputa pelo Buriti, Grass precisa ampliar seu espaço e o BRB é justamente o ponto em que a candidata governista encontra maior dificuldade para separar a continuidade administrativa que reivindica da herança política que preferiria não carregar por inteiro. Não há mistério nisso: qualquer campanha de oposição tentaria explorar a mesma vulnerabilidade e seria estranho se Lula fosse a Ceilândia pedir votos para Grass e fingisse que o maior problema do governo local não existia.
A questão começa a ficar mais interessante quando Lula deixa de falar apenas como cabo eleitoral e entra, mesmo que por alguns minutos, no terreno reservado ao presidente da República. Ao afirmar que o governo federal não dará dinheiro ao BRB, ele ofereceu a Celina uma saída que até então não estava tão disponível. A governadora pôde deixar momentaneamente a posição desconfortável de quem precisa explicar a crise e assumir a defesa de uma instituição do Distrito Federal diante do que apresentou como uma ameaça do governo da União.
É uma reação politicamente conveniente, claro, e não apaga uma única pergunta sobre o Master, mas toca num ponto que merece ser separado da espuma eleitoral. O BRB não pertence a Celina, não pertence a Ibaneis e muito menos a Leandro Grass. É patrimônio do Distrito Federal, e qualquer agravamento de sua situação ultrapassa o destino dos personagens que hoje disputam a eleição.
Isso não significa que a União tenha obrigação de aparecer com um cheque nem que deva avalizar qualquer engenharia imaginada pelo governo local para capitalizar o banco. Dinheiro público não pode ser movimentado por camaradagem federativa, muito menos para poupar um governo do custo de decisões tomadas sob sua responsabilidade. Se houver participação federal numa solução, ela precisa passar por números, garantias, condições e pela segurança de que preservar o BRB não significará simplesmente distribuir o prejuízo entre contribuintes que não participaram das decisões que o produziram.
Mas existe uma diferença entre exigir tudo isso e incorporar a sobrevivência do banco à guerra contra quem hoje ocupa o Buriti. Foi nesse ponto que o palanque de Ceilândia deixou uma pergunta que talvez acompanhe a campanha daqui para a frente: até onde Lula estava falando como líder político interessado em ajudar Grass a derrotar Celina e em que momento começou a falar como presidente da República sobre uma instituição pública que continuará existindo depois que a eleição terminar?
A lembrança daquele Lula de 2010 ajuda a entender por que a pergunta não é gratuita. Ele nunca foi um político contemplativo diante dos adversários e, quando identifica quem considera inimigo político e dispõe de força para enfrentá-lo, costuma ocupar o terreno inteiro. Fez isso em outras campanhas, às vezes com enorme eficiência, e mostrou em Ceilândia que a disposição para o confronto continua intacta. O modo guerra reapareceu, talvez porque a própria eleição esteja começando a pedir isso dele.
Só que desta vez existe um detalhe que não cabe muito bem na velha lógica de eliminar adversários do caminho. Celina pode ser derrotada, Ibaneis pode ser responsabilizado politicamente pelo eleitor e Grass pode tentar transformar o BRB no assunto capaz de mexer numa disputa que até aqui lhe tem sido difícil. Tudo isso pertence à eleição.
O BRB, não.
Quando as urnas forem guardadas, alguém ainda terá de apresentar os balanços, explicar as operações, recuperar o que puder ser recuperado, identificar responsabilidades e descobrir quanto dessa conta terminará efetivamente nas costas do Distrito Federal. A guerra política terá seus vencedores e derrotados, como sempre acontece, mas o banco continuará no mesmo lugar. E talvez seja justamente por isso que, quando um presidente decide voltar ao modo guerra, convém escolher com algum cuidado quem é o adversário e quem apenas teve o azar de estar no meio do campo de batalha.

