Enquanto os ministros do Supremo Tribunal Federal disputam protagonismos mais pessoais do que jurídicos, a Corte se afunda cada vez mais em um pântano de areia movediça cercado por crocodilos e leões ferozes. Paralelamente, o Brasil permanece confundindo imunidade com impunidade, também chamada de falta de castigo ou punição para alguém que cometeu um crime ou uma falta. Entre imunes e impunes, a novela e os atores são sempre os mesmos. Por isso, a normalidade é tudo se acabar em fantasia, Carnaval e muita pizza.
Comandado por um ministro de perfil sério, mas de conduta que lembra a de um coroinha ajudando o padre a distribuir hóstias aos fiéis da congregação, o STF de 2026 não é nem de hoje o de outrora. Águas passadas, mas que, infelizmente, continuam movendo moinhos. Com um clima pesado e marcado por embates públicos entre ministros e discussões externas sobre reformas na Corte, o Supremo do ministro Edson Fachin caminha celeremente para se transformar em uma instituição deletéria, delatável e deletável a qualquer tempo.
Não à toa, malvados favoritos de várias correntes político-partidárias, particularmente os da direita e da extrema-direita, começam a se arvorar e a se unir em torno de projetos relativos à Reforma do Poder Judiciário. Pelo menos 30 propostas de emendas à Constituição já tramitam no Congresso Nacional. Todas objetivam mudanças no sistema de indicação, regras para magistrados e a imposição de mandatos fixos para os ministros da Suprema Corte.
Baseado na linguagem política do Brasil dos remendos e da vingança, adiro à previsão de um parceiro eterno da lida no Judiciário, para quem, seja quem for o presidente da República e, independentemente da futura composição do Senado Federal, uma reforma mais ampla do Judiciário será inevitável. Como quem procura acha, certamente o Supremo Tribunal Federal, com pelo menos quatro ministros envolvidos com Vorcaro, acabará enfraquecido como nunca se viu na Nova República.
Desgastado e cada vez mais preocupado com as consequências e repercussões da crise gerada pelas teias do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e atiçada pela disputa política entre o petismo e o bolsonarismo, Edson Fachin optou pelo caminho mais fácil nos momentos de crise. Incapaz de fechar as torneiras de vazamentos de um lado para outro, ele cancelou a sessão dessa quinta-feira (17) e adiou a reunião para atualizar a atuação do acusador, ministro André Mendonça (mergulhado até a alma na campanha de Flávio Bolsonaro), no caso de Alexandre de Moraes.
Como a ideia de empurrar todo esse entulho decorrente da disputa presidencial para depois das eleições está concebida, quem sabe o Congresso Nacional, o próprio STF e os potenciais candidatos ao Palácio do Planalto não passem a se preocupar um pouco mais com o Brasil e com os brasileiros e tirem o país dessa letargia política. Sem culpa alguma, o povo é quem mais sofre com a crise. É claro que tudo precisa ser esclarecido e os envolvidos punidos. No entanto, a 17 dias do pleito, penso que o destino do país deveria ser mais importante do que os projetos pessoais.
…………
Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

