Desde a terrivelmente fatídica chegada dos portugueses por aqui, em abril de 1500, dos nomes históricos, brincalhões e jocosos, o Brasil já foi de tudo um pouco. Até se transformar em República Federativa do Brasil, o país era Pindorama, Monte Pascoal, Ilha de Vera Cruz, Terra de Santa Cruz, Terra dos Papagaios e Estados Unidos do Brasil. Nomes oficiais e bem mais simpáticos do que os apelidos Terra do Nunca, Quintal dos Estados Unidos, País do Faz de Conta e Terra de Ninguém.
Nada pior do que ser conhecido internacionalmente por República de Bananas, expressão pejorativa usada para descrever uma nação politicamente instável, com governos frágeis, sujeita a frequentes golpes militares e civis, dividida desigualmente entre uma pequena burguesia privilegiada e uma grande massa empobrecida e, de acordo com o mandatário, comandada antidemocraticamente por elites corruptas ou submissas a interesses estrangeiros e sem nenhum respeito às leis.
É justamente essa elite que confunde o Estado brasileiro com o círculo familiar e, frequentemente, com o quintal e a cozinha de suas casas. Seria esse o resultado da colonização portuguesa? Provavelmente! Com convicção e baseado em evidências, asseguro que a aristocracia, burocracia, o patrimonialismo, a exploração dos mais fracos e o preconceito são parte dessa herança maldita que nos persegue e, tudo indica, sempre nos perseguirá.
Ao cunhar o termo República de Bananas, em 1904, o escritor norte-americano Willian Sydney Porter, autor do livro de contos Repolhos e Reis, certamente se espelhou nos países das Américas do Sul e Central. Faz algumas décadas, a locução perdeu a ligação restrita com todo o continente e virou um insulto ridículo e particular contra a desorganização administrativa, a impunidade e a corrupção que grassa por todas as instituições brasileiras.
Antes exemplos comuns, o Congresso Nacional, os parlamentos estaduais e municipais e parte dos executivos hoje têm a companhia do contaminado Poder Judiciário, notadamente o Supremo Tribunal Federal, instituição transformada nesses últimos meses em ringue eleitoral de uma corrente sustentável e que está no poder exclusivamente por decisão do eleitor contra outra que perdeu a autoridade por absoluta incompetência de um de seus líderes.
Como patriota fechado com qualquer proposta de ressurreição do país, prefiro esquecer o que já fomos e focar no que ainda poderemos ser. Hiperbólicamente, demorei um século para entender o que queriam dizer com a frase os juízes não são anjos. Fazendo novamente uso da figura de pensamento chamada hipérbole, chorei um rio de lágrimas ao ver o STF de figuras tão ilustres afundadas em um mar de senhores convictos de que são deuses acima de tudo e de todos.
Por fim, falarei ou escreverei mais um milhão de vezes que, entre os que insistem em manter o Brasil como o país das mentiras e os que defendem o progresso verdadeiro, sempre optarei pelo país em que o povo é visto como astro principal, e os políticos e os politiqueiros como meros coadjuvantes. Morrerei de alegria no dia em que deixarmos de ser vistos pelos Estados Unidos de Donald Trump como República de Bananas. Nesse dia, terei certeza de que tudo vale a pena se a alma não é pequena. O Brasil que eu quero terá bananas, mas governantes capazes de elevar o país à condição de um Brasil de todos os brasileiros.
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Heliodoro Quaresma, jornalista aposentado, mantém uma velha Remington como relíquia em sua estante, e usa um Notebook para escrever artigos pontuais para Notibras

