Qual seria o último pensamento de uma mulher assassinada pelo homem que dizia amá-la?
Eu pensei na minha mãe primeiro, não sei por quê, talvez porque, quando a morte chega tão perto, a gente procure, no fundo da memória, o primeiro lugar onde aprendeu que estava segura. Lembrei das mãos dela ajeitando meus cabelos, da voz dizendo que o mundo podia ser cruel, mas que eu nunca deveria aceitar o amor como desculpa para suportar a violência…
Pensei na minha família, nas conversas interrompidas pela pressa dos dias, nas coisas pequenas que eu sempre achei que teria tempo de fazer depois. Um abraço que ficou para amanhã, uma visita que eu adiei, uma palavra de carinho que pensei em dizer outra hora… É estranho descobrir, no instante em que tudo termina, que a vida inteira foi feita de coisas que pareciam ter tempo demais.
Depois pensei nos meus filhos, e foi aí que tive medo de verdade. Não por mim, mas pela pergunta que vai permanecer dentro deles: “Por que ele fez isso com a nossa mãe?”
Como explicar a uma criança que alguém pode dizer “eu te amo” enquanto destrói justamente aquilo que afirma amar? Talvez eles cresçam procurando uma resposta que nunca será suficiente…
Talvez alguém diga que foi ciúme, que ele perdeu a cabeça, que estava transtornado, que uma discussão saiu do controle, como se palavras bonitas pudessem diminuir o tamanho de uma violência… Mas não foi amor que saiu do controle, foi a crueldade que encontrou uma porta aberta
e entrou na minha casa, na minha vida e na minha história, vestida de carinho.
Eu queria ter dito tantas coisas antes de partir… Queria ter dito que amor não aperta o pescoço, não ameaça, não humilha, não vigia, não transforma medo em rotina, nem faz uma mulher calcular cada palavra para descobrir qual delas poderá fazê-la sobreviver à noite.
Queria ter entendido antes que algumas despedidas começam muito antes da morte, quando a mulher deixa de ser livre para ser apenas tolerada, quando começa a pedir desculpas por existir e quando aprende a confundir paz com o silêncio de quem tem medo de provocar outra tempestade que pode ser pior do que a anterior…
Agora eu estou aqui, tentando guardar dentro de mim o rosto dos meus filhos, a voz da minha mãe, o cheiro da minha casa, as manhãs que eu ainda não vivi e nem vou viver… os aniversários que não vou acompanhar e as histórias que não vou contar aos meus futuros netos…
E acho que essa é a parte mais cruel: eu não estou morrendo apenas hoje. Minha família inteira vai aprender a viver com uma ausência que não deveria existir.
Meus filhos vão crescer, e eu vou continuar crescendo dentro deles como uma fotografia que o tempo não consegue apagar… Eles vão ouvir meu nome em algum lugar, vão lembrar de alguma mania minha, de alguma frase, de algum abraço, e talvez, por alguns segundos, esqueçam que eu não estou mais aqui.
E alguém vai perguntar quem me matou… Talvez respondam o nome dele, mas eu queria que perguntassem também quantas vezes uma mulher precisa sentir medo antes que alguém perceba que aquilo já era violência. Quantas ameaças precisam ser ignoradas, quantos pedidos de socorro precisam parecer exagero e quantos sinais precisam ser tratados como ciúme antes que alguém compreenda que o amor não deveria ser assim.
Eu queria que meus filhos soubessem
que eu não escolhi morrer. Eu queria muito viver por eles… eu não pensei que tudo chegaria a esse ponto quando saí de casa, quando sonhei, quando amei, quando disse não e quando tentei recomeçar. Eu só queria mais uma manhã, para ter uma conversa com minha mãe e abraçar meus filhos…
Mas o amanhã não veio para mim. E, se alguém encontrar minha história depois que eu me calar, não diga apenas que eu fui vítima de uma tragédia, diga que uma mulher morreu porque alguém confundiu amor com posse.
Diga que ela tinha nome, família, filhos, muitos sonhos, tinha medo e, principalmente, que tinha futuro. E que nenhum homem que realmente ama uma mulher precisa destruí-la por não aceitar que ela não lhe pertence.
Então, no meu último suspiro, pensei: meus filhos ainda acreditam que eu vou voltar para casa…


Muito obrigada pela oportunidade!