Sheila, 21 anos, era uma jovem alegre e extrovertida, que adorava se pegar com seus muitos peguetes. Mas havia em sua vida erótico-sexual-sentimental um fruto proibido: ela arrastava um bonde por Lucas, um rapaz de 18 anos, igualmente alegre e extrovertido.
“Qual o problema? Mó normal uma jovem ficar com um carinha três anos mais moço”, dirão vocês. Explico: Sheila era a irmã muitíssimo mais jovem do pai de Lucas. Ou seja, ela era tia dele.
Isso não era um obstáculo de ordem legal, pois desde 1941 é permitido no Brasil o chamado casamento avuncular, entre pessoas com esse grau de parentesco; além do mais, a moçoila não tinha a menor intenção de desposar Lucas, só de comê-lo com farinha. O problema era o impacto que o relacionamento teria em uma família católica, mais que conservadora.
“Absurdo”, pensava Sheila. “Todo mundo acha normal um homem mais velho se relacionar com uma mulher mais jovem, e ninguém liga se ela for sobrinha dele. Mas se eu passar Lucas na cara — uma trepadinha ou duas, não mais que isso – vai ser um perrengue”.
O fato foi que a pressão social afastou os ex-quase-futuros amantes, que jamais foram pra cama; limitaram-se a trocar, em certa noite enluarada, beijos tórridos, inesquecíveis. Em seguida, a vida ampliou o afastamento. Os pais de Sheila foram morar em outro estado, ela os acompanhou, envolveu-se com um rapaz, casou com ele, teve filhos, descasou, enviuvou… o de sempre, ao molho. Mas jamais esqueceu Lucas.
Por sua vez, ele teve experiências quase idênticas. E, claro, jamais esqueceu Sheila.
Os viúvos se encontraram de novo quase 55 anos depois, no velório de um primo de Lucas. Idoso, frequenta esse tipo de evento com um certo alívio, pensando “ainda bem que foi ele, não eu”, e sem experimentar uma tristeza profunda, pois sabe que todos vão embora algum dia (até ele, injustiça sem nome). Seja como for, os dois se olharam, pareceram surpresos, olharam-se de novo e…
— Lu…Lucas?!
— Sheila?!
O olhar dos dois maduros se entrelaçou, suas bocas de poucos dentes sorriram, começaram a conversar, mergulhados um no outro; a essa altura, o falecido poderia ressuscitar e sair voando pela janela, que o casal reencontrado nem notaria. Quinze minutos depois, decidiram deixar o velório e ir para um local mais discreto, para conversar à vontade.
Foram para um hotel.
No quarto, olharam-se com atenção; foi como se a realidade se dividisse em dois planos. Sheila via, sobreposta à figura daquele velho de braços flácidos e careca, a imagem de um rapaz de sorriso atrevido, sobre quem costumava pensar com as palavras “meu menino lindo”. Lucas avistava, junto àquela velhinha de pele enrugada e seios flácidos, uma jovem risonha e de corpo escultural, a quem tantas vezes homenageara com suas masturbações.
— Lembra daquela noite? — disseram ambos. E riram, tinham pensado ao mesmo tempo na noite enluarada dos beijos tórridos.
— Você ainda gosta de beijar? — provocou Lucas.
— Adoro! — admitiu Sheila, sem um pingo de timidez.
Beijaram-se como se não houvesse amanhã.
— Você gosta de … — Lucas completou a pergunta com um murmúrio, no ouvido de Sheila.
— Claro!!! — e baixando a voz:
— E retribuo, taradinho querido.
[Sou um contista austero, não vou escrever do que ela gostava, como pagava na mesma moeda, nem por que o chamou de taradinho. Entendedores entenderão.]
Os deuses devem ter sorrido, ao ver os dois velhinhos enroscando-se na última, decididos a tirar um atraso de mais de 50 anos. O lance ia além da dimensão física, que libido de, digamos, sênior não é lá essas coisas. Mas amor não tem idade, e o deles floresceu, livre e solto, como se unisse uma jovem de 21 anos e um jovem de 18.


Kkk