O segundo turno da eleição presidencial deu a larga antes mesmo de os palanques serem novamente montados. E começou onde normalmente se decidem disputas apertadas. Não entre aqueles que já escolheram Flávio Bolsonaro ou Luiz Inácio Lula da Silva, mas no território ocupado pelos milhões de brasileiros que, no primeiro turno, preferiram um terceiro candidato, votaram em branco, anularam ou simplesmente não compareceram.
As urnas deixaram a fotografia bastante clara de que Flávio Bolsonaro chegou em primeiro lugar, com 47,03% dos votos válidos, pouco mais de 56,1 milhões de votos. Lula terminou com 45,16%, aproximadamente 53,9 milhões. A diferença entre os dois ficou em cerca de 2,2 milhões de votos.
Trata-se de uma vantagem importante politicamente, porque entrega a Flávio a narrativa de vencedor da primeira etapa, mas está muito longe de resolver a eleição de 25 de outubro. Um detalhe que não deve se esquecido é que o verdadeiro tesouro eleitoral está espalhado entre os candidatos que ficaram pelo caminho.
Augusto Cury recebeu aproximadamente 3,45 milhões de votos. Renan Santos, outros 2,68 milhões. Ronaldo Caiado chegou a 2,61 milhões. Somados, somente esses três candidatos reuniram cerca de 8,7 milhões de votos, correspondentes a quase quatro vezes a diferença que separou Flávio de Lula.
A batalha sobre esse patrimônio eleitoral logo que o resultado oficial foi anunciado. O primeiro movimento de peso veio de Michel Temer. O ex-presidente declarou apoio a Flávio Bolsonaro e apresentou sua escolha como uma alternativa de “reconexão” política do país. A manifestação possui peso que vai além dos votos que Temer eventualmente seja capaz de transferir.
Temer conversa com um eleitorado diferente do bolsonarista tradicional, e sua presença ajuda Flávio a procurar uma ponte com setores do MDB, do centro político, do empresariado e de segmentos conservadores que não necessariamente se identificam integralmente com o bolsonarismo.
Depois veio Romeu Zema, com o ex-governador mineiro foi explícito ao anunciar seu voto em Flávio e reafirmar sua oposição ao PT. Embora tenha obtido apenas 0,27% dos votos válidos na corrida presidencial, sua importância não pode ser medida apenas por esse percentual. Minas Gerais continua sendo um dos maiores colégios eleitorais do país, e qualquer deslocamento relevante de votos no estado pode assumir dimensão nacional.
Ronaldo Caiado representa um ativo eleitoral mais volumoso, uma vez que ele terminou o primeiro turno com 2,18% dos votos válidos, aproximadamente 2,6 milhões de eleitores. O anúncio formal de seu apoio a Flávio está previsto para esta terça-feira, 6, em Goiânia. O PSD nacional decidiu liberar suas lideranças, diretórios e filiados para escolherem seus próprios caminhos no segundo turno, mas o pessedista de hoje, como o de ontem, sempre foi oposição à situação.
Forma-se, portanto, uma movimentação que a campanha de Flávio tentará apresentar como uma ampliação de sua candidatura para além das fronteiras originais do PL. Cury é a joia mais cobiçada, embora permanecesse neutro até a noite desta terça-feira, quando jantou com Flávio, mostrando disposição para entrar no tabuleiro com suas peças.
Augusto Cury foi o terceiro colocado da eleição, com 2,89% dos votos válidos e cerca de 3,45 milhões de votos. Se, como avaliam os bolsonaristas, o escritor declarar apoio Flávio Bolsonaro, o que deve acontecer nas próximas quatro horas, o fim da neutralidade pode ser traduzida como favas contadas.
Tudo porque, no Datafolha realizado antes do primeiro turno, 44% dos eleitores que declaravam voto em Cury afirmavam que escolheriam Flávio numa disputa direta contra Lula; 30% migrariam para o petista e 24% votariam em branco ou anulariam. Entre os eleitores de Caiado, a divisão registrada era semelhante: 46% para Flávio, 30% para Lula e 22% entre brancos e nulos. No eleitorado de Renan Santos, 54% declaravam preferência por Flávio e 28% por Lula.
Diante desses índices, a aritmética começa a interessar. Não porque seja possível simplesmente somar os votos de Cury, Caiado, Renan e Zema aos de Flávio, porque eleição nenhuma funciona dessa maneira, mas porque pesquisas realizadas antes do primeiro turno já indicavam uma inclinação maior de parcelas desses eleitorados em direção ao candidato do PL.
Existe outro componente que muda psicologicamente o início do segundo turno. Na pesquisa Datafolha divulgada em 2 de outubro, Lula aparecia com 45% dos votos válidos no primeiro turno, contra 40% de Flávio. Na simulação de segundo turno, Lula tinha 48% e Flávio 45%, uma diferença que configurava empate técnico dentro da margem de erro. Mas a urna produziu uma fotografia diferente daquela captada pelo levantamento para o primeiro turno, com Flávio terminando não cinco pontos atrás, mas 1,87 ponto percentual à frente de Lula.
Jornalistas e analistas políticos não autorizam concluir antecipadamente quem vencerá em 25 de outubro, porque pesquisa mede intenção de voto no momento em que é realizada, e urna conta votos efetivamente depositados. E segundo turno constitui uma nova eleição, com novas alianças, campanha renovada e apenas duas alternativas na cédula.
O resultado, entretanto, produziu uma consequência política inequívoca, com Flávio começando a segunda etapa carregando a condição de primeiro colocado do primeiro turno. Contudo, seria erro imaginar que o caminho eleitoral existe apenas para um lado. Os números indicam que a eleição registrou abstenção de 21,08% — mais de 33 milhões de brasileiros não compareceram às urnas. Outros milhões votaram em branco ou anularam. E esse contingente é muito superior à diferença registrada entre os dois finalistas.
A campanha de Lula já identificou esse terreno. Segundo relatos publicados após a eleição, uma das prioridades petistas será justamente tentar reduzir a abstenção e buscar eleitores que ficaram fora da decisão no primeiro turno. Portanto, enquanto Flávio procura transformar a convergência da direita e da centro-direita em transferência efetiva de votos, Lula terá de reconstruir pontes deterioradas com o eleitorado que não aderiu ao presidente no primeiro turno e, sobretudo, convencer parte dos ausentes a comparecer em 25 de outubro.
São estratégias distintas diante do mesmo problema. Apoio de cacique não significa voto no bolso, além do que há uma advertência indispensável. Michel Temer pode declarar voto em Flávio, Zema pode subir no palanque, Caiado pode fazer campanha e dirigentes partidários podem distribuir fotografias, gravar vídeos e apertar mãos. Nenhum deles, porém, é proprietário dos votos recebidos por seus campos políticos.
A história recente demonstrou que o eleitor brasileiro indicou repetidas vezes independência em relação às orientações das lideranças partidárias. u seja, a transferência eleitoral precisa ser conquistada individualmente. É por isso que os próximos levantamentos serão muito mais reveladores do que qualquer soma feita numa calculadora. Eles mostrarão se a movimentação política da direita está realmente chegando ao eleitor ou se permanecerá restrita às fotografias dos palanques.
O paradoxo deste segundo turno está nos números. Flávio Bolsonaro entrou na disputa final aproximadamente 2,2 milhões de votos à frente de Lula. Apenas Cury, sozinho, recebeu mais votos do que essa diferença. Cury, Renan e Caiado somaram aproximadamente 8,7 milhões. E mais de 33 milhões de brasileiros sequer compareceram no primeiro turno. Ou seja, ha votos suficientes em circulação para alterar completamente o desenho deixado pelas urnas de domingo.
Flávio tentará fazer do primeiro lugar uma onda e transformar os apoios de Temer, Zema, Caiado, Cury e outras lideranças em demonstração de que a direita e parte do centro decidiram fechar fileiras. Já Lula tentará impedir que essa fotografia se transforme numa frente eleitoral consolidada, ao mesmo tempo em que buscará votos entre os derrotados, os moderados e principalmente entre aqueles que ficaram em casa.
Se a primeira batalha foi vencida por Flávio Bolsonaro por 47,03% a 45,16% e a segunda começa praticamente do zero. Porque, entre uma eleição e outra, os votos não são herdados, mas disputados novamente. E os aproximadamente 2,2 milhões de votos que hoje separam Flávio e Lula parecem pequenos diante dos milhões que, a partir de agora, estão novamente sobre a mesa.
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José Seabra é CEO fundador de Notibras

