O resultado inicial das eleições gerais de 2026 me obrigou a voltar no tempo áureo da política brasileira. Voltei à primeira eleição pós-redemocratização, período em que a prosperidade de alguns homens públicos evidenciava que muitos deles já se manifestavam pródigos em meias verdades e desde então lutam pelo progresso do nosso subdesenvolvimento. As promessas eram vazias, mas havia regras de conduta e de respeito aos eleitores, principalmente aos pobres.
Passadas duas ou três décadas, hoje o pobre finge que não sabe, mas, no recesso do lar, quando houver, ele tem certeza de que não foi feito para a política, mas para sustentar o poder dos políticos. Diante dos números de votos vinculados aos nomes dos eleitos, me parece tão claro como um céu de brigadeiro que, entre os cerca de 160 milhões de eleitores brasileiros, a maioria defende bandeiras e vantagens pessoais, deixando os princípios para uma minoria que se envergonha até de lembrar que também vota.
Eu faço parte dessa lista de brasileiros que votam e nome do país e que estão envergonhados dos que elegem quem não conhece, mas lhes prometem o Cristo Redentor, o Maracanã ou a praia de Copacabana. O que fazer? Nada, pois, como dizia o velho e bom Stanislaw Ponte Preta, rabo e conselho só se deve dar a quem pede. Se afastar dos políticos mentirosos eles não querem e têm raiva de quem lhes pede isso.
Triste esse tipo de devoção àqueles que não merecem, mas de fácil entendimento. Todo mundo sabe que o cão é a fidelidade em pessoa e dá tão comovedoramente seu coração que enternece a todos com sua dedicação. Torço para que esse povo do voto de cabresto nunca esqueça da história do passarinho que come pedra. Um dia, ele descobre que o trem fica esfolado quando o barranco desce e a pedra começa a sair.
É aí que, aportuguesando o resultado do voto mal dado, o eleitor desinformado, mal aconselhado, apático, alienado ou que não se incomoda em ser conhecido como massa de manobra um dia acaba hiperbolicamente chorando rios de lágrima. Tudo bem, não fôssemos também atingidos pela lama suja do Congresso Nacional das duas ou três últimas legislaturas. De tão ruins, às vezes tenho certeza de que meu anjo da guarda político está gozando licença-prêmio desde 1985, ano da redemocratização.
Como não ser saudosista? Como não lembrar que, pelo menos para algumas dúzias de políticos antigos, o primeiro mandamento da moral pública era “Não roubar, não deixar roubar e pôr na cadeia quem roube”. Atualmente, a corrupção é a maior invenção política. Tão grandiosa que, se acabar, acabam os políticos. A exceção, se houver, é no máximo de meia dúzia de excelências. Quando muito, seis.
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Misael Igreja é analista de Notibras para assuntos políticos, econômicos e sociais

