Quando a fé passou a pedir licença ao partido

Redação
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Klaus Russo - Foto de Arquivo

Numa manhã de julho de 2025, Leonardo Gonçalves gravou um vídeo para explicar por que havia sumido. Durante 22 anos ele foi um dos cantores mais ouvidos do país — adventista de berço, 300 milhões de execuções num único álbum, platina dupla, indicação ao Grammy Latino, hinos que entraram no repertório de batistas, assembleianos, presbiterianos e universais.

“Tive a oportunidade de estar em praticamente todas as igrejas”, disse. Depois veio 2022. Ele criticou o que chamou de “instrumentalização da fé” para um projeto político, chamou Bolsonaro de “presidente nefasto”, declarou voto em Lula e cantou na posse de 1º de janeiro de 2023. Os convites pararam.

“Inviabilizou-se a minha continuidade de trabalho. Os convites não aconteceram mais”, resumiu. No fim de 2023, aceitou “um pouco a contragosto” uma vaga de professor de música e inglês na Alemanha, entendendo que o ciclo como cantor solo havia se encerrado. Ninguém o proibiu de nada. Não houve nota de excomunhão, decreto de pastor, lista negra assinada. Houve algo mais simples e mais eficaz: cada igreja, uma a uma, deixou de ligar.

Ele próprio deu nome ao fenômeno ainda em novembro de 2022, no programa de Pedro Bial, quando contou que a agenda estava “praticamente inexistente”: “O que está acontecendo comigo não é uma perseguição e sim uma rejeição”.

A distinção é o centro deste texto. Perseguição tem autor. Rejeição não tem — e é por isso que ela revela algo que nenhum decreto revelaria: quem manda, de fato, dentro da igreja evangélica brasileira. Quando um cantor cujas músicas a comunidade canta de cor pode ser tornado inaudível por discordar de um político, e os pastores que pediram votos “em nome de Jesus” seguem no púlpito, a hierarquia entre a fé e o partido está exposta.

Esta é uma história sobre essa hierarquia. E, como se verá adiante, ela já foi vivida uma vez, por autores de hinos alemães, entre 1933 e 1942. O que ele era, em números Para medir o que o público evangélico abriu mão, é preciso saber o tamanho do que descartou. Poemas e Canções (2002), gravado pela Novo Tempo, a gravadora adventista, lançou “Getsêmani”. Viver e Cantar (2007) vendeu mais de 70 mil cópias físicas — número Page 1 of 2Cantaram o hino, tiraram o cantor: quando a fé passou a pedir licença ao partido expressivo para o mercado gospel — e trouxe “Ele Vive”. Princípio e Fim (2012) trouxe “Sublime” e “Novo”; o site Super Gospel o apontou como o melhor álbum da década. Princípio (2014) soma mais de 300 milhões de execuções entre áudio e vídeo e levou os troféus de melhor intérprete nacional e melhor música do Troféu de Ouro daquele ano. Sentido (2020) foi indicado ao Grammy Latino de 2021 como melhor álbum cristão em língua portuguesa.

As certificações da indústria dizem o resto: “Getsêmani” e “Eu Me Rendo”, ouro para platina dupla para “sublime”, platina para Princípio (Ao Vivo). O canal no YouTube passava de 432 milhões de visualizações e 1,3 milhão de inscritos; no Spotify, os 117 títulos somam cerca de 364 milhões de reproduções, e “Acredito” sozinha ultrapassa 48 milhões. A Apple Music o apresenta como “um dos principais cantores de música gospel de todos os tempos”.

Depois de 2022, a curva vira. Ele mesmo contou a Bial que havia perdido, em semanas, entre 200 e 300 mil ouvintes mensais. Em 2023 os registros mostram 740 mil e depois mil ouvintes mensais; em outubro de 2026, 630 447 mil. Queda de cerca de 40% em três anos, num período em que o consumo de música gospel no país só cresceu. E o streaming nem é o que sustenta um artista no Brasil: são os shows em igreja. Esses foram a zero.

O detalhe que importa é o que não mudou. Nenhuma canção foi alterada. Nenhuma doutrina foi abandonada. Nenhum escândalo pessoal apareceu. A mesma voz, as mesmas letras, a mesma fé. O que mudou foi o voto.

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