Peña é preso após impeachment no Paraguai; Pedro Alliana, vice, assume

Redação
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Antônio Albuquerque - Foto Fernando Frazão

O Paraguai mergulhou nesta sexta-feira, 6, em uma das mais graves crises políticas e institucionais de sua história recente. O presidente Santiago Peña foi destituído do cargo pelo Senado e colocado em prisão domiciliar, sob suspeita de envolvimento em irregularidades relacionadas ao colapso do Ueno Bank. Horas depois, o vice-presidente Pedro Alliana prestou juramento perante o Congresso Nacional e assumiu o comando do país, com a missão de restabelecer a estabilidade política e recuperar a confiança da população no sistema financeiro.

A queda de Peña ocorreu após uma votação unânime dos 44 senadores presentes à sessão extraordinária. Os parlamentares consideraram o presidente culpado por mau desempenho de suas funções, encerrando antecipadamente um governo iniciado em agosto de 2023. A decisão transformou Peña no segundo presidente paraguaio afastado por impeachment desde o fim da ditadura de Alfredo Stroessner, em 1989.

O processo de impeachment começou na quinta-feira, 5, quando a Câmara dos Deputados aprovou a acusação contra o chefe do Executivo. A denúncia apontou graves conflitos de interesses e possíveis irregularidades na administração de recursos públicos, especialmente nas relações entre o governo e o Ueno Bank, instituição financeira que entrou em colapso e provocou uma onda de protestos em Assunção.

Segundo as acusações apresentadas no Congresso, Peña teria utilizado sua influência política para direcionar centenas de milhões de dólares em recursos públicos ao banco, enquanto órgãos reguladores deixavam de agir diante de operações consideradas arriscadas. O ex-presidente nega as irregularidades e sustenta que as acusações não demonstram sua responsabilidade direta pela crise financeira.

A defesa argumentou durante o julgamento que parte dos fatos atribuídos ao presidente era de competência de instituições autônomas, como o Banco Central do Paraguai e o Instituto de Previdência Social. Também questionou a continuidade do impeachment depois de Peña apresentar sua renúncia. Os senadores, entretanto, decidiram prosseguir com o julgamento e aprovaram sua destituição.

A situação judicial do ex-presidente agravou-se imediatamente após a perda do cargo. Autoridades determinaram que Peña permanecesse em uma residência na capital paraguaia, sob vigilância policial, enquanto o Ministério Público conduz os procedimentos relacionados às suspeitas de abuso de confiança, tráfico de influência e utilização do cargo público para obtenção de benefícios pessoais.

O ex-presidente deverá comparecer perante os procuradores neste sábado, 7. Algumas das acusações investigadas podem resultar em penas de até dez anos de prisão, caso sejam formalizadas e comprovadas na Justiça. A prisão domiciliar não representa condenação criminal, mas uma medida cautelar adotada durante a investigação.

O epicentro da crise é o Ueno Bank, instituição que experimentou rápida expansão nos últimos anos e passou a administrar expressivos volumes de recursos públicos e privados. Sua intervenção pelas autoridades monetárias provocou o bloqueio de contas, dificuldades para movimentação de depósitos e uma crescente sensação de insegurança entre correntistas e investidores.

O Banco Central paraguaio afirma que a cobertura do seguro de depósitos alcança aproximadamente 97% dos clientes da instituição, mas a dimensão da crise ultrapassou os limites do sistema bancário. A paralisação de pagamentos afetou famílias, aposentados, trabalhadores e empresas, provocando manifestações que passaram a exigir não apenas a devolução do dinheiro, mas também a responsabilização de autoridades públicas.

As investigações já alcançaram dezenas de executivos ligados ao banco. Entre os investigados está seu fundador e ex-presidente, Miguel Vázquez, que se encontra preso preventivamente. As autoridades também determinaram a apreensão de bens associados ao empresário, incluindo veículos de luxo, embarcação e aeronaves.

A crise financeira também revelou uma disputa pelo poder dentro do Partido Colorado, legenda que domina há décadas a política paraguaia. O ex-presidente Horacio Cartes, antigo aliado e padrinho político de Peña, rompeu com o governo e passou a apoiar sua saída. Analistas apontam que o enfraquecimento dessa aliança foi decisivo para que o presidente perdesse sustentação no Congresso.

Pedro Alliana, também integrante do Partido Colorado, assumiu a Presidência em uma cerimônia solene realizada no Congresso Nacional. Caberá ao novo governante concluir o mandato presidencial, previsto para terminar em agosto de 2028. Em seu compromisso de posse, Alliana prometeu preservar a ordem constitucional, garantir a estabilidade democrática e iniciar um processo de pacificação política.

A missão, porém, começa cercada de dificuldades. O novo presidente também é alvo de investigações relacionadas à crise bancária, circunstância que amplia as dúvidas sobre a capacidade do governo de recuperar rapidamente a credibilidade das instituições.

Nas ruas de Assunção, a destituição foi recebida com manifestações de alívio por parte de milhares de paraguaios. Grupos de estudantes, aposentados e correntistas acompanharam o julgamento diante do Congresso, exibindo bandeiras nacionais e cobrando punição para os responsáveis pelo colapso financeiro. Outros manifestantes se concentraram nas proximidades da residência onde Peña cumpre prisão domiciliar.

O desfecho representa uma mudança abrupta no cenário político do Paraguai, país que até recentemente apresentava relativa estabilidade institucional em comparação com outros vizinhos sul-americanos.

Para Pedro Alliana, a prioridade será demonstrar que a substituição presidencial não representa apenas uma troca de nomes no Palácio de López, sede do governo. O novo chefe de Estado precisará enfrentar simultaneamente a crise bancária, as pressões populares, as investigações de corrupção e as disputas internas de seu próprio partido.

A queda de Santiago Peña encerra um capítulo de pouco mais de três anos de governo, mas não significa o fim da turbulência. O Paraguai entra em uma nova etapa política com um ex-presidente sob custódia judicial, um sistema financeiro pressionado e uma população que exige respostas concretas.

A questão central, agora, é saber se a posse de Pedro Alliana será suficiente para devolver a governabilidade ao país ou se a crise que derrubou Peña continuará produzindo consequências políticas, econômicas e judiciais nos próximos meses.

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