O telefone tocou. Tocou novamente. Atendi na terceira ou quarta tocada. Era um amigo me convidando para uma daquelas festas de arromba, animada por ninguém menos que Renato Barros, o líder do antológico grupo Renato e Seus Blue Caps. Se tivessem confirmado presença, Wanderléa e Martinha seriam backing vocals do terrível, inesgotável e inoxidável Wanderley Cardoso, o eterno Docinho de coco. Como é feito há mais de 60 anos, o ingresso precisava ser simbólico. No quadro de avisos do salão de festas, a informação de que o buffet servirá pratos feitos de mingau de maizena ou de fubá, leite com Nescau, mangas fatiadas ou jarras de Q Suco de framboesa.
Os mais afoitos poderiam tomar escondidos gotas controladas de Cuba Libre ou de Rivotril, no caso dos mais espevitados. Tudo isso sob a rígida supervisão do Guarda Belo, o mesmo que infernizou por décadas a vida do Zé Colmeia. Do alto de seus 92 anos incompletos, o amigo da Arca de Noé me garantiu ao telefone que vai ser bom. Ele já não sabe mais contar a história do Brasil. Entretanto, insiste em responder que nove vezes nove é igual a 13 e que o 17 e o 22 são enganações do modernismo das redes sociais. Devo informar que meu amigo é um craque na arte de promover prosaicos e assexuados encontros da primeira turma do Zepelin.
Infelizmente, a do 14 Bis chegou ao reino dos céus pouco antes do naufrágio do Titanic I. Antigo, mas lúcido como a Vovó Mafalda da primeira versão de Chico City, o cabra é festeiro desde o berço, onde aprendeu a tocar bandoneon no próprio bilau. Roteirista de O Direito de Nascer e ator coadjuvante do épico filme A volta ao Mundo em 180 Dias, Emerenciano Negreiros tanto sabe o que faz quanto só faz o que sabe. É vocação. Com duração máxima de meia hora, a festinha dos anos 30 a.C será usada pelo velho camarada para estabilizar a união com Lolô, a namorada conquistada ainda durante os trovões do último dilúvio.
A principal promessa a ser cumprida pelo velho fogoso é dançar o agô agô com sua Lolô, apelido gracioso de Lollobrigida, a Gina dos sonhos eróticos de muitos meninos de nossa época. Mesmo no além, Jerry Adriani espalhou convites afirmando que, junto com a Lolô, virão Rita Pavone e Brigitte Bardot. Aliás, Bardot já está há seis décadas em terras brasileiras, mais precisamente no calçadão de Búzios. Contam os historiadores menos mentirosos que a atriz francesa se apaixonou pela cidade durante uma pescaria de Piau Banana, Pintados e Xereletes. Braba porque só pegou dois Pacus, ela se instalou de cara lavava, mala e cuia no Cais do Mangue de Armação de Búzios.
Sozinhas, Lolô, Pavone e Bardot não animam uma festa. Por isso, a pedido do velho sacripanta, telefonei para Lili, Marli, Guigui, Geni, Sueli, Reni, Nely, Kiki, Ceci e Gigi. Elas toparam, mas exigiram a presença de Dora com sua vitrola. Dora será a disk jockey nos intervalos dos shows do Renato e Seus Blue Caps e dos Fevers. Ainda não tive acesso ao repertório, mas até onde sei só vai rolar twist dos bons. Vale registrar escritos famosos de Shakespeare denominando o twist como uma dança gostosa, uma dança legal. Está dada a dica. Ainda há ingressos à disposição.
Emerenciano pediu para avisar que, antes, durante e depois dos Blue Caps do Renato e dos Fevers, estão liberados os bilhetinhos apaixonados via correio elegante. Talvez seja a última canção para a maioria da rapaziada. Pouco importa para quem entrou em prontidão tão logo o saracoteio foi divulgado. A ordem do amigo Anfumácio é tirar o pé do chão, mover as cadeiras e sentir o balanço macio e gostoso do andador. O que se anuncia como o derradeiro sacramento da terceira idade, com muito rock, suor e saliência, deve acabar em saudade da sacanagem consentida. Confirmei presença, mas impus condições. As meninas não podem ir de pantufas, tampouco os homens de ceroulas. Também não aceitei o Samu à porta e nem socorristas de plantão
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Armando Cardoso é presidente do Conselho Editorial de Notibras

