Confesso que tenho observado com certa perplexidade algumas reações brasileiras ao escândalo do Ueno Bank, que acabou derrubando o presidente Santiago Peña. Não exatamente pela indignação diante da corrupção, que é legítima e necessária, mas por uma espécie de satisfação que parece ter tomado conta de setores da esquerda, que preferem a miopia do ataque ao esforço de compreender o que de fato acontece. Como se a desgraça do vizinho fosse motivo para comemorar. E, melhor ainda, como se agora estivesse demonstrado que os brasileiros que decidiram investir, empreender ou viver no Paraguai tivessem cometido uma grande ingenuidade.
É curioso como conseguimos transformar até um escândalo bancário estrangeiro em mais um capítulo das nossas intermináveis disputas políticas.
Peña nunca escondeu sua proximidade com Donald Trump e sua identificação com a direita internacional. Essa escolha oferece motivos para críticas políticas legítimas, inclusive à forma como conduziu suas relações externas. O problema é que, no Brasil, basta aparecer o nome de Trump para que muita gente dispense o restante da explicação. Os fatos passam a interessar menos do que a oportunidade de atingir o adversário. E, assim, uma crise institucional no Paraguai acaba servindo de munição nova para uma polarização brasileira que parecia não precisar de mais combustível.
Mas vamos combinar uma coisa: o Paraguai não foi inventado por Santiago Peña. Muito menos sua política de atração de investimentos.
A Lei de Maquila existe desde 1997. Foi modernizada em 2025, mas a estratégia de oferecer condições tributárias competitivas, custos menores e alguma previsibilidade para quem pretende produzir atravessou diferentes governos. Há muito tempo empresários brasileiros fazem contas e encontram do outro lado da fronteira oportunidades que, por razões diversas, nem sempre conseguem encontrar aqui.
E não estou falando apenas de grandes grupos econômicos. Há pequenos industriais, produtores rurais, comerciantes, profissionais liberais e famílias inteiras que decidiram recomeçar. Conheço bem o significado dessa decisão. Ninguém abandona sua rotina, reorganiza a vida da família ou transfere um negócio para outro país apenas porque ouviu um discurso presidencial convincente.
As pessoas fazem escolhas. Assumem riscos. Algumas acertam, outras não. E têm todo o direito de procurar uma vida melhor onde acreditam que ela seja possível.
Isso significa que o Paraguai é um exemplo acabado de desenvolvimento? Evidentemente que não. O país ainda precisa avançar muito em saúde pública, infraestrutura, proteção social e direitos trabalhistas. Há desigualdades, deficiências institucionais e problemas que não desaparecem porque determinado imposto é menor ou porque instalar uma indústria pode ser mais barato.
Também seria absurdo minimizar o caso Ueno. O colapso do banco atingiu correntistas, expôs relações perigosas entre interesses privados e o poder público e provocou uma crise de consequências ainda imprevisíveis. Peña deixou o governo, sofreu impeachment e foi colocado em prisão domiciliar. As acusações precisam ser apuradas, com responsabilidade e direito de defesa, sem que a rapidez das providências seja confundida com conclusão definitiva sobre a culpa dos envolvidos.
Aliás, a velocidade da reação institucional merece ser observada, embora não autorize ninguém a declarar que o sistema paraguaio funcionou perfeitamente. Afinal, se tivesse funcionado tão bem assim, talvez o escândalo não tivesse alcançado essas proporções.
O que me incomoda é outra coisa. É perceber que, para alguns, a queda de Peña parece representar uma espécie de derrota pessoal de cada brasileiro que apostou no Paraguai. Como se empreender naquele país significasse aderir a uma ideologia, apoiar Trump ou assinar um atestado de confiança eterna em qualquer governante de Assunção.
Desde quando abrir uma empresa ou mudar de país virou declaração de preferência política?
O Paraguai continuará tendo dificuldades depois de Peña, assim como continuará oferecendo condições econômicas que não nasceram com ele. O escândalo deve provocar uma discussão séria sobre fiscalização, transparência, instituições e o futuro do desenvolvimento paraguaio. Seria bom que também estimulasse alguma reflexão brasileira sobre as razões pelas quais tantos compatriotas resolveram buscar oportunidades além da fronteira.
Mas parece que preferimos o caminho mais fácil. Em vez de discutir o que leva uma empresa a sair do Brasil, comemoramos quando aparece um problema no país que a recebeu.
No fundo, há uma ironia nisso tudo. Enquanto transformamos a crise do vizinho em mais uma batalha da nossa guerra ideológica, milhares de brasileiros continuam trabalhando, produzindo, pagando suas contas e tentando melhorar de vida do outro lado da fronteira.
Não precisam de aplausos. Muito menos de lições de patriotismo dadas por quem nunca precisou fazer a mesma escolha.
E o povo paraguaio, que atravessa um momento particularmente difícil de sua história, merece algo melhor do que servir de instrumento para as nossas disputas políticas.

