Copom ajusta mais um tijolo nos juros, mas economia ainda pode desabar

Redação
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Dora Andrade - Foto de Arquivo

O Banco Central tirou mais um pequeno tijolo da muralha dos juros brasileiros, mas o muro continua alto. Muito alto. O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu nesta quarta-feira (16) a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, de 14% para 13,75% ao ano. Foi o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto, numa decisão unânime dos diretores do BC.

A redução, entretanto, não foi suficiente para tirar o Brasil de uma posição desconfortável no cenário internacional. Quando se considera o chamado juro real — isto é, a taxa de juros descontado o efeito esperado da inflação —, o País continua na primeira posição mundial, segundo levantamento elaborado pelo Portal MoneYou em parceria com a Lev Intelligence.

Com a nova Selic, o juro real brasileiro foi calculado em 8,45% ao ano, ante 9,30% no levantamento anterior. Ainda assim, permanece bem acima das taxas verificadas nas demais grandes economias pesquisadas.

No levantamento atual, o Brasil aparece à frente de Rússia, com 6,79%; Colômbia, 6,33%; Turquia, 6,25%; e México, 3,08%. A média dos juros reais das 40 economias consideradas no estudo ficou em apenas 1,62% ao ano.

A fotografia muda um pouco quando são consideradas apenas as taxas básicas nominais, sem descontar a inflação. Nesse ranking, o Brasil ocupa a quarta colocação mundial, com seus 13,75%. À frente aparecem Turquia, com 37%; Argentina, com 29%; e Rússia, com 14%.

Redução gradual
O atual ciclo de queda começou depois de um período prolongado de aperto monetário. A Selic permaneceu em 15% ao ano entre junho de 2025 e março de 2026, patamar que não era observado havia quase duas décadas. Desde então, o Banco Central passou a promover cortes graduais.

Em junho, quando a Selic caiu para 14,25%, o Brasil assumiu a liderança mundial dos juros reais, ultrapassando a Rússia. Em agosto, mesmo depois de outro corte, para 14%, continuou na primeira posição, com juro real calculado então em 9,30%. Agora, aos 13,75%, a taxa real recuou para 8,45%, mas o País continua isolado no topo dessa classificação.

A trajetória descendente ganhou espaço com a desaceleração dos preços. O IPCA acumulado em 12 meses caiu para 4,22% em agosto, depois de ter registrado 4,44% em julho. Somente em agosto, houve deflação de 0,32%, resultado melhor que o esperado pelo mercado. Parte desse alívio, porém, decorreu de fatores temporários, especialmente o desconto nas tarifas de energia elétrica.

Guerra e clima
O problema para o Banco Central é que a estrada para juros mais baixos ganhou novos obstáculos. O agravamento dos conflitos no Oriente Médio elevou as incertezas sobre petróleo, energia e commodities, enquanto riscos climáticos relacionados ao El Niño podem pressionar especialmente os preços dos alimentos.

No comunicado divulgado após a reunião, o Copom voltou a enfatizar a incerteza do ambiente internacional e a necessidade de cautela na condução da política monetária. A autoridade monetária não se comprometeu antecipadamente com a dimensão ou mesmo com a continuidade dos próximos cortes, indicando que as decisões dependerão da evolução da inflação e da atividade econômica.

O cenário internacional também ficou mais apertado. Nesta quarta-feira, o Federal Reserve elevou os juros norte-americanos em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano. Enquanto Brasília começa a retirar o pé do freio, Washington voltou a apertá-lo, reduzindo o enorme diferencial entre as taxas dos dois países.

O preço dos juros altos
Para o consumidor, permanecer na liderança mundial dos juros reais está longe de ser apenas uma curiosidade estatística. A Selic funciona como referência para o custo do dinheiro no País. Taxas elevadas tendem a encarecer empréstimos, financiamentos e crédito às empresas, além de desestimular consumo e investimentos.

Há também o outro lado da moeda: juros elevados aumentam a remuneração de aplicações de renda fixa e ajudam a tornar os ativos brasileiros atraentes para investidores internacionais, embora esse efeito dependa também da percepção de risco fiscal, político e cambial.

O Copom, portanto, começou a descer a escada, mas muito vagarosamente. A Selic já deixou para trás os 15% que vigoraram durante meses e chegou agora aos 13,75%. Ainda assim, quando a inflação esperada é colocada na conta, o Brasil continua olhando o restante do mundo do lugar mais alto — justamente num ranking em que ocupar a primeira posição está longe de ser motivo para comemoração.

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