A última viagem de Quinca

Eduardo Martínez
11 minutos de leitura
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Quinca, perto de completar oitenta anos, tomou um baque. Câncer, disse o médico. E do tipo agressivo, sem muito ter o que fazer. Diante do prognóstico desfavorável, teve a conversa mais franca e breve com a esposa.

 — Vou morrer.

 — Todos vamos um dia, meu amor.

 — Não, Lúcia. Quer dizer, sim.

 — Então?

 — Câncer.

 — Câncer?

 O casal se olhou e o abraço tentou confortá-lo. Não houve lágrimas ou lamúrias. Todos morrem um dia, apesar de ninguém parecer suficientemente preparado quando se dá o início da contagem regressiva.

 Não demorou para que Gilberto, o único filho, soubesse da notícia. Foi como se um impiedoso trator devastasse todas as lembranças da sua infância. Talvez isso tenha impulsionado o sujeito a fazer uma proposta, mas que ele já estava certo de que a resposta seria um sonoro não.

 — Aceito! Quando vamos? Hoje? Amanhã? Quando? Quando?

 Uma viagem para Porto Seguro. O local não poderia ser outro, pois fora ali que Cabral teria desembarcado no que seria o início do Brasil.  Não necessariamente uma verdade, mas era isso que constava nos livros de história. Estória que seja.

 Gilberto, pego de surpresa, desde menino convivia com o pavor do seu velho de voar: “Meu filho, se Papai do Céu quisesse que o homem voasse, teria nos dado asas e não braços.”

 Foram de avião. Voo direto de Brasília para Porto Seguro. Dona Lúcia preferiu ficar, já que percebeu que aquela aventura precisava ser vivida pelo marido e pelo filho.

 O trajeto que seria de pouca coisa além de hora e meia durou quase oito. Culpa da chuva torrencial que não deixou o avião pousar em Porto Seguro. O bom é que Quinca não parecia ter pressa de nada, muito menos de morrer. E foi nesse clima que pediu uma caipirinha, depois mais uma e, para rebater, jogou goela abaixo um martíni.

 Assim que Gilberto e seu pai pisaram no Hotel Casa Blanca Porto Seguro, se depararam com os amigos Antônio e Zé Mineiro. Uma surpresa para Quinca, que nada sabia da tramoia do filho com a dupla. Surpresa agradável.

 — Vocês por aqui?

 — Pois é, seu Quinca! O Gilberto não te falou?

 — Que nada, Zé! O meu filho mal grunhe, imagina falar.

 Depois de um dia inteiro de conversas, os quatro homens tomaram a saideira em frente à piscina. A mente inquieta de Quinca divagava sobre o tempo que ainda lhe restava.

 — E, então, rapazes, o que vamos aprontar amanhã?

 Antônio pareceu entender aquelas palavras como um chamamento para estripulias.

 — Bem, seu Quinca, conheço um lugar, digamos, familiar. O Bar da Bibi Perigosa.

 — Familiar? Antônio, por favor, olha onde você vai levar o meu pai.

 — Fica quieto, Gilberto! Quero ouvir a proposta do Antônio.

 — Mas, papai…

 — Gilberto, fica quieto! Já falei! Quem está morrendo aqui sou eu. Prossiga, Antônio, antes que alguém me enterre.

 Sem argumentos que pudessem demover o pai da ideia de conhecer o suposto inferninho, Gilberto tratou de arrumar uma maneira de salvar a alma do genitor. Pois rezaria quantas rezas fossem necessárias, mesmo não sabendo nenhuma de cor. E faria de tudo para que aquela história jamais fosse apresentada aos ouvidos praticamente santos de sua mãe.

 Já devidamente instalado no quarto, Gilberto observou o pai. O senhor parecia mais contente do que de costume. O jovem, encucado, não sabia se aquele torpor era por causa da bebida ou por conta da perspectiva de o velho estar prestes a conhecer a tal Bibi.

 Quinca pegou uma toalha e se dirigiu ao banheiro. Assim que Gilberto ouviu o barulho da ducha ligada, ele tratou de pegar o aparelho celular e fazer uma busca na internet para saber mais sobre o Bar da Bibi Perigosa. Isso o encheu de angústia, enquanto o pai, apesar da controversa afinação, se fazia de Cauby e cantava Conceição debaixo do chuveiro.

Conceição
Eu me lembro muito bem
Vivia no morro a sonhar
Com coisas que o morro não tem

Foi então
Que lá em cima apareceu
Alguém que lhe disse a sorrir
Que, descendo à cidade, ela iria subir

Se subiu
Ninguém sabe, ninguém viu
Pois hoje o seu nome mudou
E estranhos caminhos pisou

Só eu sei
Que tentando a subida desceu
E agora daria um milhão
Para ser outra vez Conceição

Gilberto, enquanto ouvia a interpretação do pai, já nem sabia o que era certo ou errado. Antes de chegar a uma conclusão, adormeceu.

Por volta das nove horas, com o Sol mostrando quem é que manda na Bahia, Quinca, Gilberto, Zé Mineiro e Antônio, sentados em frente à praia, confabulavam lorotas. Zé Mineiro, certamente o mais amigo das inverdades, contava causos vividos por outrem como se fossem seus, além de dois ou cinco inventados. Todos riam, mesmo que desconfiassem à vera que aquilo tudo não passasse de criações de uma mente embusteira.

Entre um petisco e outro, os companheiros nem perceberam a hora passar. Foi então que o Quinca se lembrou:

— E aí, Antônio, eu vou ou não vou conhecer essa Bibi Perigosa?

— Ih, seu Quinca, eu até tinha me esquecido. O senhor quer mesmo ir?

— Hum! É óbvio! E que seja antes de São Pedro me chamar.

— Do jeito que a coisa vai, pai, acho que o senhor vai conhecer é o Capeta.

— Cala essa boca, Gilberto! Ou você quer me matar antes do sol se pôr?

Algumas trocas de farpas adiante, lá foram os sujeitos para o afamado Bar da Bibi Perigosa, entranhado na Mata Atlântica. Mal entraram no recinto, foram recebidos por uma mulher de seus sessenta anos, no limite entre a beleza e o atrevimento, sorriso maior do que a cara. Impossível não se simpatizar com ela. Quer dizer, o Gilberto, o ressabiado da patota, ficou com um pé atrás com a dona do lugar. Entretanto, como era minoria, achou por bem ficar mudo.

Bibi serviu o melhor peixe frito da região. Tão bom, que até o ranzinza do Gilberto teve que dar o braço a torcer. E o Quinca, encantado e curioso que estava, não resistiu e fez uma pergunta que deixou a todos boquiabertos:

— Bibi… Posso chamá-la assim?

— Sim, Quinca. É assim que todos me chamam.

— Estou encucado com uma coisa.

— Pois diga logo, homem, que a vida é muito curta para ser protelada.

— Por que te chamam de Bibi Perigosa?

— Bem, meu caro Quinca, isso é uma longa história. Mas pode ficar tranquilo, há muito tempo não sou tão perigosa assim.

 Todos caíram na gargalhada, o que não impediu o Gilberto de continuar com a incômoda pulga atrás da orelha. Entretanto, com o passar dos dias e diante do carisma da Bibi, até o resmungão foi perdendo a carranca. E, quando chegou a inevitável hora de se despedir, fez questão de, sorrateiramente, ir até o Bar da Bibi Perigosa. Mas eis que ele se perdeu e, depois de horas na mata, finalmente encontrou o local, que já se encontrava fechado.

Gilberto, todo suado, parado diante do bar, chamou pela dona. Nada. Bateu palmas. Nenhuma resposta. Já quase desistindo, percebeu uma porta entreaberta na lateral e, tomado de certa intimidade, entrou. Foi quando ouviu um som vindo de um dos quartos. Ele caminhou alguns passos e, já na entrada, quase caiu para trás.

— Pai?

Lá estava o Quinca aos beijos e amassos com a Bibi Perigosa.

— Filho, calma! Posso explicar.

Como não havia explicação para dar, ao menos uma que valesse a pena ser inventada na hora, Bibi tomou a palavra:

— Olha aqui, Gilberto, não há mais crianças na sala. Então, o lance é o seguinte: aconteceu. Simples assim. E que isso fique aqui no meu bar. E que jamais chegue a Brasília. Estamos entendidos?

Dois meses se passaram. O velho Quinca fechou os olhos pela última vez. Gilberto ainda carrega consigo a dúvida se o seu pai conheceu São Pedro ou foi na outra direção. Dona Lúcia, todavia, dorme com a certeza de que o marido só pode estar no Céu.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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