Dois humanos, um gato e um cachorro

Eduardo Martínez
3 minutos de leitura
Eduardo Cesario-Martínez - Foto Irene Araújo

Roncava aos decibéis. Sem cerimônias. Como se fosse dono dos pobres ouvidos alheios. Que aturassem aquele som tragicômico emitido. Ah, que fossem para as cucuias antes que as olheiras adornassem aquelas criaturas desprovidas de Deus.

O gato correu para o quintal em busca de paz. O cachorro fingiu fidelidade. Já a esposa, apesar da ferrenha religiosidade, chegou a sonhar com a viuvez.

Humberto, ainda de pestanas cerradas, anteviu o próprio despertar. Moído por mais uma noite de pesadelos, como se tivesse sido dragado para o fundo de um lago. Sem ar. Entre a dor e a angústia. Abriu os olhos azuis despidos de ilusões.

— Dormiu bem, meu amor?

Ainda absorto por uma avalanche de remorsos, Humberto vasculhou na memória um sorriso.

— Sim. E você, Laura?

— E como se dorme com essa tempestade?

— Choveu?

— Relâmpagos e trovoadas. Não ouviu?

O homem, com movimentos incrédulos de cabeça, disse que não. Ele tentou se inteirar da vida por uma nesga na janela. Apenas alguns fachos de luz que pareciam bailar com o leve movimento da cortina.

O cachorro olhou o ser que considerava seu mundo até receber um leve afago. Abanou a cauda. Tanto sacrifício lhe pareceu ter valido a pena.

— Cadê o Arquibaldo?

— Não aguentou.

— Não aguentou o quê, Laura?

— Na certa, foi se aliviar no jardim ou, não duvido, foi caçar. Que apanhe um rato. Não suporto quando ele mata passarinho.

Humberto lavou o rosto, escovou os dentes. Pensou em se barbear. Entediado, preferiu deixar para outro dia. Talvez semana que vem, final do mês…

Juca, bolinha na boca, se postou diante do homem. Olharam-se, o cachorro inclinou o focinho para frente, soltou a bolinha, que escorregou até os pés do Humberto. O sujeito sorriu, tomou o último gole do café.

— Ele quer brincar com você, meu bem.

Humberto assentiu com a cabeça. Beijou a mulher.

— Vamos, garoto! Ando tão enferrujado. Se eu não quebrar, termino o dia.

E lá foram aqueles dois brincar no jardim antes que alguém despejasse um temporal sobre eles. Ao fundo, Arquibaldo parecia se refestelar com um canário entre os dentes.

……………………

Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).

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