Existe uma coisa que o tempo ensina e a juventude ainda não consegue compreender: amizade não é quantidade.
É permanência.
A vida adulta é uma espécie de seleção natural das relações.
Na adolescência, você pode ter cinquenta amigos.
Na vida adulta, depois de trabalho, mudanças, distância, relacionamentos, responsabilidades e crises existenciais, você começa a perceber que algumas pessoas permanecem.
E essas são perigosíssimas.
Porque sabem demais.
Sabem quem você era.
Sabem quem você fingiu ser.
Sabem quem você tentou esquecer.
E, principalmente, sabem exatamente o que dizer quando você começa a se levar a sério demais.
Simmel talvez encontrasse na amizade uma forma particular de sociabilidade, uma relação que existe não apenas pelo que produz, mas pelo prazer de estar junto.
Mauss talvez acrescentasse a dimensão da reciprocidade.
Eu acrescentaria: amizade verdadeira envolve uma obrigação moral de mandar mensagem quando o outro está fazendo uma besteira.
Mesmo sabendo que ele provavelmente vai fazer a besteira assim mesmo.
Amigos são aquelas pessoas que podem olhar para você e dizer:
“Não faça isso.”
Você faz.
Eles olham.
“Eu avisei.”
E continuam ali.
Isso é amor.
Ou falta de opção.
Ainda não decidi.
Talvez o mais bonito das amizades seja justamente o fato de que elas testemunham nossas transformações.
A pessoa que conheceu uma versão nossa há dez, quinze anos pode olhar para nós hoje e perceber coisas que nem nós percebemos.
É quase uma arqueologia afetiva.
A amizade guarda camadas.
Guarda histórias.
Guarda versões.
Guarda até vergonhas que deveriam ter sido destruídas por decreto.
E talvez seja por isso que algumas amizades sejam tão importantes.
Elas nos lembram que não somos apenas aquilo que somos hoje.
Somos também tudo aquilo que fomos capazes de atravessar.
A vida muda.
As cidades mudam.
Os corpos mudam.
Os sonhos mudam.
As pessoas mudam.
E, ainda assim, algumas mãos continuam disponíveis.
Talvez seja essa uma das formas mais bonitas de resistência:
Ter alguém que conheceu todas as suas versões e, mesmo assim, ainda escolha sentar ao seu lado.
Inclusive depois de saber das histórias.
Principalmente depois de saber das histórias.

