Ando solteiro desde que resolvi dar um tempo na relação. O que estou fazendo? Por que florear o pavão quando já se tornou notório que foi a Laura que colocou o ponto final no namoro?
Depois de ser dispensado, escorraçado, quase açoitado como se fosse um cachorro sarnento, acho que a notícia ultrapassou a barreira dos conhecidos. Se digo isso é porque, não raro, quando caminho a passos cautelosos pela cidade, sempre me deparo com sorrisos de Monalisa estampados em rostos estranhos. Como sabem que eu sou eu? Teria a minha fotografia saído nos jornais?
Churrasco na casa do Luiz. Sujeito bacana. Tem lá seus defeitos. E quem de nós não os carrega? Um chato! Isso é o que ele é. Mas o churrasco é de primeira, a cerveja sempre gelada. Eu fui. A minha situação não me permite desprezar qualquer oportunidade, por mais mísera que seja, para descolar uma gata. Na verdade, nem precisava ser tão linda. Alguém que soubesse fingir estar apaixonada por mim. É pedir muito, meu Deus?
Cheguei quando a festa já estava embalada. O receio de encontrar a Laura… Pior seria encontrá-la com outro. No entanto, consegui relaxar logo em seguida a um interlúdio com a Amanda, esposa do Luiz.
— Não, Rubens, a Laura não veio. Acho que não vem. Saudade?
— Eu? Não, não. Perguntei por perguntar.
Amanda sorriu como se fosse a famosa pintura do Leonardo. Boba ela não é. Mulheres…
Entre um gole e um naco de carne, conheci a Solange. Simpática, sorridente, parecia meio deslocada. Prima de uma amiga de uma convidada. Lúcia? Ana Lúcia? Maria Lúcia? Sei que era Lúcia. Não importa. Algumas doses de tequila deixaram a Solange, digamos, acessível.
— Rubens, né?
— Sim.
— Tu é amigo da Amanda ou do Luiz?
— Dos dois. Quer dizer, conheço o casal por conta da minha ex-namorada.
— E ela está aqui?
— Não.
Quando acabei de dizer isso, eis que a Laura, mais exuberante do que nunca, chegou de mãos dadas com um tipo qualquer. Olha eu aqui fazendo de novo. Um galã. Droga! Para piorar, ela me viu e acenou com aquela cara de vencedora. Como azar pouco é bobagem, eis que a Solange, a simpática Solange, vomitou até os bofes sobre a minha cara. Que derrota!
Sem ter muito o que fazer, eu me limpei como deu. O Luiz até me ofereceu uma blusa, mas preferi recusar a gentileza. Agradeci e fui embora. Ah, como a solteirice humilha a gente!
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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