Dia desses ouvi que luto é que nem maré. Tem vez que vem carregada de emoções, tudo incontrolável, mas que, no momento seguinte, esvazia igual a pneu furado.
Gente da minha idade já deveria estar calejada com perdas. Não é bem assim. Perdi a minha esposa há seis meses. Lúcia. Lúcia Maria de Almeida e Silva. Sessenta e oito anos, cinco a menos do que os que me acompanham hoje.
— Aguente firme, Amauri. Daqui a pouco, só as boas lembranças ficarão. Vai por mim, meu amigo, sei como é.
— Amauri, meu querido, esse é o destino de todos nós.
— Deus chamou a Lúcia. Não há o que fazer, Amauri. É aceitar os desígnios de Deus.
Como odeio essas frases de consolação. Antes ficassem todos calados. Por que ninguém parece entender que há momentos de apenas estar e pronto. Quietos. Bem quietos. Quietinhos e pronto. Mas não! Insistem nessa maré cheia, impiedosamente cheia de palavras vazias, palavras que só aprofundam ainda mais as feridas dolorosamente expostas.
Vida. Morte. Vida inútil. Não é por estar caminhando para a linha de saída da própria existência que irei florear o vazio que vivi desde sempre. Filho ingrato, irmão egoísta, amigo ausente, marido pífio, profissional medíocre. Não tinha como deixar de me tornar este velho ranzinza e frustrado. Quantos sonhos imaginados, todos deixados de lado. Vida ridícula e facilmente esquecível.
A pouca coragem que desfrutei pertencia toda ela à Lúcia. Lúcia Maria de Almeida e Silva. Que se fez de poeta quando o mundo a chamava de dona de casa. Um ou outro, talvez por amizade, a dizia poetisa.
— Não, Rômulo, poetisa não sou nem nunca fui. Poeta. Poeta sim, antes mesmo de arriscar a primeira estrofe.
Lúcia era assim. Despachada. Sem subterfúgios para dizer o que tinha que ser dito. Não cansava de reclamar da minha passividade perante qualquer possibilidade de imbróglios.
— Amauri, meu amor, por que você insiste em guardar suas falas? Do que você tem medo? Da vida?
Ela me olhava, sabia que não ouviria resposta. Sorria com aqueles dentes lindos, os lábios torneados, os cílios negros ornando seus olhos escuros. E eu ali parado, sem saber o que fazer. Ela me abraçava, e isso me confortava.
Do que eu tenho medo? De tudo. Queria eu não ser assim. Covarde é o que sou. Por que foi se casar com um tipo como eu, tão desprovido de audácias, Lúcia? Lúcia Maria de Almeida e Silva.
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Eduardo Cesario-Martínez é autor do livro ’57 Contos e Crônicas por um Autor Muito Velho’ (Vencedor do Prêmio Literário Clarice Lispector – 2025 na categoria livro de contos).
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