A vida própria das leis

Eduardo Martínez
5 minutos de leitura
Edna Domenica - Foto Francisco Filipino
A vida própria dos opressores é um mar de queixas impróprias sobre os oprimidos. Como os políticos de partidos de extrema direita lotam o Congresso Nacional Brasileiro atual, pode-se dizer que as leis são queixas próprias /impróprias dos abastados.  Esses reivindicam mais e mais poder e oceanos de riquezas. Ouça o barulho dessa onda:
 Esta história começa assim: queixei-me da minha mulher. O pastor ouviu-me a queixa. Sugeriu-me a receita de como controlá-la. Que usasse em partes iguais: Viagra, dinheiro e proibições. O Viagra e o dinheiro a atrairiam. As proibições esturricariam o de dentro dela. Assim fiz. Contraiu uma doença. Morreu.
Continuando a observar o maremoto social acompanhe mais cinco ondas:
Queixei-me de tédio. Um colega do colégio ouviu-me a queixa. Deu-me a receita de como matar o tédio… Que usasse o tempo em partes desproporcionais: passar muitas horas nas redes sociais, escolher dentre os desafios de coragem, praticar um dos atos sugeridos. Assim fiz.
A outra história é como a primeira, mas se chama “Apropriação”. Começa dizendo que eu me queixara de tédio. Um colega me ouviu. Segue-se a receita. E então entra o inusitado. A verdade é que só em abstrato me havia queixado de tédio, que nem meu era: pertencia a um grupo de amigos da escola. Só na hora de consumar o livramento do tédio é que se tornou meu também. Em nosso nome, então, comecei a sentir a adrenalina numa concentração mais intensa. Um vago rancor me tomara, um senso de ultraje.
Eu aviava o elixir do livramento. Um medo excitado e meu próprio lado mal secreto me guiavam. Agora eu só queria gelidamente uma coisa: matar cada cachorro dócil que os babacas do parque alimentavam. A calada da noite ouviu nosso primeiro ato comunitário de coragem.
Durante a noite eu matara. Em nosso nome amanhecia. Próximo ao parque, um galo cantou.
A terceira história que ora se inicia é a da “Viralização”.
Começa dizendo que eu me queixara de tédio. Depois vem a mesma sequência receitada: passar muitas horas nas redes sociais, narrar o enfrentamento do desafio de coragem, e pormenores da prática do ato heroico realizado. Vai indo até o ponto em que, de madrugada, nosso ato tinha viralizado. De minha fria altura de gente que é dona, olho a derrocada dos cachorros sem dono, mundo a fora. Amanhece. Da história anterior canta o galo.
A quarta narrativa inaugura nova era. Começa como se sabe: queixei-me de tédio. Vai até o momento em que vejo a repercussão nas redes sociais e televisiva. ”Orelha” – fora morto, sim. Mas penso nos parques e praças, por onde nessa mesma noite renovar-se-á uma população lenta e viva de cães dóceis na fila do osso. Eu iria então renovar o estoque letal como quem já não dorme sem a avidez de um rito? E todas as madrugadas me conduziria sonâmbulo até o vício de ir ao encontro da estátua que o meu livramento do tédio a mim mesmo erguia? Estremeci de mau prazer à visão daquela sensação trapaceira. E também ao aviso sobre o vício de viver de modo tão trabalhoso. Áspero instante de escolha entre dois caminhos que, pensava eu, se dizem adeus, e certo de que qualquer escolha seria a do sacrifício: eu ou meu conforto. Escolhi. E hoje ostento secretamente no coração uma placa de virtude: “Provei minha coragem”.
A quinta história chama-se “A perversidade do topo da pirâmide social, o personalismo, e a pervertida coragem”. Começa assim: queixei-me de tédio.
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Referências
“A voz dos vencidos e a procura da coisa, em Lispector – Notibras” https://www.notibras.com/site/a-voz-dos-vencidos-e-a-procura-da-coisa-em-lispector/
 LISPECTOR, Clarice. A Quinta História. In Felicidade Clandestina, Rio de Janeiro: Rocco, 1998. Disponível em
MEROLA, E Domenica. Os narradores em A Quinta História. Blog
Aquecendo a escrita. Postado em 04/12/2017.
Este texto faz parte da Trilogia “Própria ou imprópria? ” que abarca:
1- A vida própria das coisas
 2- A vida própria do acaso, 
3- A vida própria das leis .
A trilogia referida resulta de reflexões sobre vivências e releituras de Clarice Lispector. 
Edna Domenica é autora de “O Setênio” (Tão livros, 2024) e co-autora de “Rapsódia da Rua da Mooca” (Tão livros, 2026).
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2 Comentários
  • Bom dia Edna:
    Fechou a Trilogia. Grande trabalho! Momentos de transição registrados com talento e sensibilidade, características de tuas incursões pela Literatura. Gostei do referência de Clarisse Lispector. Ela vive de maneira intensa em cada texto que criamos e isto é formidável. Aguardando o próximo.
    (Gilberto Motta)

  • Quase tudo o que escrevo ( textos que assino e tenho os créditos) merece citar débitos. Obrigada, amigo Giba Motta, pelos momentos de trocas e de aprendizagens.

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