Abílio, 80 anos, estava sozinho em casa quando, por volta das 10 horas, bateram palmas.
“Hum… nem tocaram a campainha”, pensou. “Palmas fortes”.
Abriu a porta e deparou-se com um homem de uns 40 anos, que ofereceu seus serviços como limpador de caixa de gordura. Espantado, não via um profissional desses fazia muito, Abílio declinou a oferta; nem explicou que a atividade estava a cargo de uma desentupidora havia mais de 20 anos. O homem não insistiu, agradeceu e foi embora.
O idoso pensou um momento em profissões que haviam desaparecido ou estavam prestes a, deu um suspiro nostálgico e esqueceu o assunto.
Lá pelas 15 horas, tocaram a campainha. Era um senhor uniformizado.
— Mata-mosquito –, apresentou-se. E foi entrando. Tinha nas mãos uma espécie de borrifador, com o qual lançou um líquido negro e espesso em vasos de flores e outras superfícies que acumulavam água e, por isso, serviam como nascedouro de ovos e larvas de mosquitos. Abílio assistiu a seu trabalho, embevecido. Sentiu-se levado de volta à infância – uma viagem no tempo de mais de 70 anos –, quando esses funcionários públicos eram vistos visitando os jardins e quintais das casas, em todas as cidades brasileiras.
O mata-mosquito terminou seu serviço, despediu-se polidamente e partiu.
Outra vez sozinho, Abílio tremeu nas bases. Não podia ser coincidência, no mesmo dia fora visitado por dois profissionais que nem imaginava ainda existirem, um limpador de caixa de gordura e um mata-mosquito: era como se o universo estivesse trazendo ícones de seu passado para junto dele. Por que isso estava acontecendo?
Afinal, chegou a uma conclusão preocupante: talvez fosse um aviso de que chegara a hora de juntar-se a essas figuras datadas. Sim, podia ser uma advertência de que estava chegando a hora de partir. Deu de ombros e esperou o próximo sinal.
Às 22 horas, a campainha soou novamente. Abílio foi abrir; viu, sem surpresa, que se tratava das figuras mais queridas de sua infância, seu avô e sua avó. Apareceram como um casal na faixa dos quarenta anos, sem um pingo de velhice ou debilidade.
Vestido com seu melhor terno, o avô sorriu para ele e falou em tom carinhoso.
— Hora de vir conosco, Bilinho (havia décadas que ele não ouvia esse apelido).
Com um sorriso confiante, Abílio/Bilinho deu as mãos ao avô e à avó e partiu com o casal, deixando para trás, no chão da sala, um corpo inerte.

