Das lembranças que tenho da infância, não há muitas recordações românticas… mas tem muita história engraçada.
Nina era neta do coração de Dona Irinha, e Dona Irinha era fogo!
Ela não deixava Nina namorar. Mas Nina fugia. Era daquelas de pular a janela no alto da noite. Tá aí uma vantagem de morar em casa… se fosse apartamento, essa treta ia ser bem mais difícil.
Num belo dia, Nina marcou com o boy 1. Só que o boy 2 resolveu aparecer também.
Eu e Dedê, como sempre, estávamos juntos, acompanhando a novela de camarote. Estávamos sentados na praça quando deu a hora de Nina voltar para casa. Fomos todos para a calçada da Dona Irinha.
Nina entrou e voltou minutos depois… de pijama.
Eu olhei para Dedê. Dedê olhou para mim. Nós dois achamos estranho, mas resolvemos não perguntar nada. Quem conhece Nina sabe que é melhor não investigar.
Quando voltou, ela soltou:
— Gente, fala baixo! Minha avó deixou eu ficar mais um pouco, mas sem bagunça no portão.
E nós obedecemos. Ficamos ali, falando baixinho. Papo vai, papo vem… até que, de repente, Dona Irinha apareceu no portão.
Nina levantou num pulo:
— Tchau, gente! Amanhã eu volto!
Só que, na hora de passar pelo portão…
Vapt!
O rodo cantou!
O boy 2, sem o menor amor à vida, subiu no muro e ainda gritou:
— Isso, Dona Irinha! Pega ela!
Na mesma hora, Dona Irinha ameaçou correr atrás de todo mundo.
Eu e Dedê nem pensamos. Um olhou para o outro e saiu no embalo. Amizade verdadeira é isso: correr primeiro e perguntar depois.
Descemos a rua rindo, sem saber se era de nervoso ou da cena que tínhamos acabado de assistir.
Foi aí que… apagão! Faltou luz na rua inteira.
E, como se o roteiro ainda não estivesse bom o bastante, apareceu o boy 1, que nem conhecia o boy 2.
A gente cumprimentou ele normalmente, e ele perguntou:
— Cadê a Nina?
Eu, tentando manter a compostura, respondi:
— Dona Irinha acabou de colocar ela pra dentro de casa.
Dedê abaixou a cabeça para esconder o riso. Eu quase entreguei tudo.
Por muito pouco os dois boys não se encontraram.
Até hoje eu desconfio que Deus apagou a luz do bairro para evitar uma tragédia… ou uma comédia ainda maior.
Nina escapou do rodo, os boys escaparam um do outro, e eu e Dedê escapamos porque tínhamos um talento especial: correr quando Dona Irinha respirava fundo.
Moral da história: o perigo nunca foi o triângulo amoroso. O verdadeiro personagem principal era Dona Irinha, um rodo na mão e disposição de atleta olímpica para correr atrás da vizinhança inteira.

