Das lembranças que tenho da infância…

Eduardo Martínez
3 minutos de leitura
Ana Paula Rocha - Texto e Imagem

Das lembranças que tenho da infância, não há muitas recordações românticas… mas tem muita história engraçada.

Nina era neta do coração de Dona Irinha, e Dona Irinha era fogo!

Ela não deixava Nina namorar. Mas Nina fugia. Era daquelas de pular a janela no alto da noite. Tá aí uma vantagem de morar em casa… se fosse apartamento, essa treta ia ser bem mais difícil.

Num belo dia, Nina marcou com o boy 1. Só que o boy 2 resolveu aparecer também.

Eu e Dedê, como sempre, estávamos juntos, acompanhando a novela de camarote. Estávamos sentados na praça quando deu a hora de Nina voltar para casa. Fomos todos para a calçada da Dona Irinha.

Nina entrou e voltou minutos depois… de pijama.

Eu olhei para Dedê. Dedê olhou para mim. Nós dois achamos estranho, mas resolvemos não perguntar nada. Quem conhece Nina sabe que é melhor não investigar.

Quando voltou, ela soltou:

— Gente, fala baixo! Minha avó deixou eu ficar mais um pouco, mas sem bagunça no portão.

E nós obedecemos. Ficamos ali, falando baixinho. Papo vai, papo vem… até que, de repente, Dona Irinha apareceu no portão.

Nina levantou num pulo:

— Tchau, gente! Amanhã eu volto!

Só que, na hora de passar pelo portão…

Vapt!

O rodo cantou!

O boy 2, sem o menor amor à vida, subiu no muro e ainda gritou:

— Isso, Dona Irinha! Pega ela!

Na mesma hora, Dona Irinha ameaçou correr atrás de todo mundo.

Eu e Dedê nem pensamos. Um olhou para o outro e saiu no embalo. Amizade verdadeira é isso: correr primeiro e perguntar depois.

Descemos a rua rindo, sem saber se era de nervoso ou da cena que tínhamos acabado de assistir.

Foi aí que… apagão! Faltou luz na rua inteira.

E, como se o roteiro ainda não estivesse bom o bastante, apareceu o boy 1, que nem conhecia o boy 2.

A gente cumprimentou ele normalmente, e ele perguntou:

— Cadê a Nina?

Eu, tentando manter a compostura, respondi:

— Dona Irinha acabou de colocar ela pra dentro de casa.

Dedê abaixou a cabeça para esconder o riso. Eu quase entreguei tudo.

Por muito pouco os dois boys não se encontraram.

Até hoje eu desconfio que Deus apagou a luz do bairro para evitar uma tragédia… ou uma comédia ainda maior.

Nina escapou do rodo, os boys escaparam um do outro, e eu e Dedê escapamos porque tínhamos um talento especial: correr quando Dona Irinha respirava fundo.

Moral da história: o perigo nunca foi o triângulo amoroso. O verdadeiro personagem principal era Dona Irinha, um rodo na mão e disposição de atleta olímpica para correr atrás da vizinhança inteira.

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