Freya dos gatinhos

Eduardo Martínez
4 minutos de leitura
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

Certa noite, eu me encontrava naquele terreno meio indefinido, entre a vigília e o sono, quando se materializou no meu quarto uma mulher de feições escandinavas. Era alta, mais alta que as humanas, e tinha na cabeça um capacete de guerreiro – ou melhor, de valquíria, as donzelas encarregadas de transportar os tombados em combate para o valhala, o salão dos mortos heroicos. Conheço bem pouco da mitologia ambientada em Asgard, só mesmo Odin, o deus supremo, o poderoso Thor e o traiçoeiro Loki, e isso apenas de filmes e quadrinhos, mas ainda assim arrisquei:

— De… deusa Freya?

— Sim, mortal. O que conhece a meu respeito?

Lisonja e caldo de galinha não fazem mal a ninguém. Mandei ver:

— Apenas que é a mais bela das deusas de Asgard.

Ela sorriu, satisfeita.

— Já é alguma coisa. Mas há muito mais. Sou a divindade nórdica do amor, da beleza, da fertilidade, da riqueza, da feitiçaria, da guerra e da morte. Você, que se interessa por mitologia, conheça alguma divindade que some tantos atributos?

Neguei com veemência, e estava sendo sincero. Comparei a multideusa com deidades das mitologias helênica e iorubá, com as quais tenho uma certa familiaridade: muitas figuras femininas desses panteões partilham aspectos com a poderosa Freya, mas não concentrados em uma única entidade. Assim, a linda e sensual Afrodite, a Vênus dos romanos, se identifica aos três primeiros atributos; mamãe Oxum é a senhora do ouro e da riqueza; Atena é a deusa grega da estratégia militar; a misteriosa Hécate está associada à feitiçaria, enquanto Iansã é a única orixá capaz de controlar e guiar os espíritos dos mortos. Em resumo, na disputa mais equilibrada, Freya ganhava de Afrodite por 7 x 3.

A essa altura perguntei, cheio de dedos, o porquê da visita.

— É porque tem mais uma coisa que você não sabe: também estou associada a gatos. Minha carruagem é movida por dois gatos — materializou uma foto. — Não são lindos?

Concordei, abri meu celular, mostrei-lhe fotos das ferinhas que moram comigo, ela as elogiou. Cumprido esse ritual de amantes de gatos, Freya prosseguiu:

— É, já tinha lido textos seus sobre gatinhos. E em alguns você introduz como personagem minha amiga Tabet, deusa-gata do antigo Egito. E com uma guinada surpreendente, pediu-me com o melhor sotaque do Brás paulistano:

— Orra, meu, se escreve sobre ela, cê também podia escrever sobre mim. Escreve, vai…

Levei um susto com a habilidade da deusa nos dialetos da capital paulista. Era provavelmente uma tentativa meio desajeitada de enturmar comigo; tadinha, não sabia que não sou daqui, sou de Niterói, não tenho uma gota de sangue italiano nas veias e não domino o brasês, o bexiguês e outros falares ítalo-paulistanos. Seja como for, sorri polidamente e prometi escrever.

Prometeu cumpriu, diziam na antiga Hélade. Digo eu, milênios depois, em São Paulo: prometi, cumpri.

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