Lado B da Literatura: Pelas ruas do Rio, à procura de quem já não atende à porta

Eduardo Martínez
6 minutos de leitura
Daniel Marchi - texto e foto

Há uma informação nas certidões de óbito que me faz demorar um pouco mais na leitura: o endereço do falecido. Sobretudo quando se trata de alguém que conheci pelos livros ou pela arte. Leio o nome da rua, o número, às vezes o apartamento, e penso na pessoa chegando em casa.

Foi assim que comecei a reunir estes endereços. Todos no Rio de Janeiro. Alguns em ruas pelas quais muita gente passa diariamente, sem qualquer motivo para olhar para cima. Eu mesmo gostaria de saber quantas vezes estive perto de uma dessas casas sem desconfiar de quem havia morado ali.

Na Rua do Catete, 222, Di Cavalcanti teve seu último domicílio. Um apartamento num prédio simples do Catete. Acho curioso como essa informação tão simples modifica a distância que temos de um artista. Estamos acostumados a encontrar seu nome numa exposição, num livro de arte, sob a reprodução de uma pintura. De repente, temos o endereço. Poderíamos escrever num envelope.

Não sei como eram suas chegadas àquele apartamento. Não conheço os ruídos que vinham da rua, nem o que se via da janela. Há, ainda, a possibilidade de se reconstruir o aspecto da vizinhança, pois em alguns lugares pouca coisa mudou. Mas saber que ele voltava para ali me dá vontade de olhar o prédio com alguma demora. Há coisas que uma fachada não conta sozinha.

Na Praia de Botafogo, 28, o Edifício Tanira foi o último domicílio de Raul Bopp. O autor de Cobra Norato tinha aquele endereço. Gosto de aproximar as duas informações: o título de um livro e o número de uma casa. Quem guarda um poema na memória talvez também possa guardar uma pequena indicação de onde viveu o homem que o escreveu.

Em Copacabana, os endereços se acumulam.

Na Avenida Atlântica, 900, no Edifício Waldorf, morou Candido Portinari, ao fim da vida. Na Rua Paula Freitas, 20, residia Augusto Frederico Schmidt. São nomes que encontro reunidos agora por uma circunstância doméstica, cada qual com sua casa, seus horários, hábitos, suas preocupações que não chegaram necessariamente até nós.

Fico pensando no que havia de comum nesses dias. Por mais que se conheça a obra de alguém, quase toda a sua vida nos escapa. Uma tarde sem trabalho, uma indisposição, a espera de uma visita. Não sabemos. E talvez seja essa parte que desperte tanta curiosidade quando olhamos a fotografia de uma sala ou descobrimos um endereço antigo.

Manuel Bandeira terminou seus dias na Rua Aires Saldanha, 72. Já não morava no apartamento em que foi filmado o curta Poeta do Castelo. Esse pequeno desencontro me comove. O cinema conservou o poeta numa casa da qual ele ainda haveria de sair. Podemos revê-lo ali, repetir seus movimentos, acompanhar outra vez aquele cotidiano. Depois da filmagem, porém, houve outros dias. Houve uma mudança. Houve a Aires Saldanha.

Penso no trabalho de mudar de casa. Escolher o que levar, acomodar os livros, procurar um lugar para as coisas que antes encontrávamos sem olhar. Com o tempo, o novo endereço passa a sair naturalmente da boca. É o que damos aos amigos, o que escrevemos nas cartas. Até que um dia alguém o registra por nós.

Carlos Drummond de Andrade morava na Rua Conselheiro Lafayete, 60, onde permaneceu até morrer, em 1987. Diante desse número, tenho vontade de deixar de lado, por um instante, tudo o que se escreveu sobre ele e o que o próprio escreveu. Pensar apenas que havia um apartamento para o qual Drummond voltava após viver a vida pelas ruas. Que, depois das ruas, havia a casa com seus objetos e pessoas queridas.

É uma curiosidade modesta. Não espero que a portaria explique um poema. Mas há alguma coisa de afetuoso em saber onde um poeta morou. Como acontece com as pessoas de quem gostamos: queremos conhecer um pouco do seu caminho.

No Leblon, a Rua Desembargador Alfredo Russel, 62, foi o último domicílio de Graciliano Ramos. Na Gávea, na Rua Frederico Eyer, 149, ficava a casa em que Vinicius de Moraes viveu e morreu. O acesso por um pequeno portão me faz pensar em quem chegava para visitá-lo. Pessoas que sabiam qual era a casa, que tinham um motivo para entrar, que podiam encontrá-lo.

Nós chegamos depois. Temos os livros, as canções, os retratos. Temos também esses números, que parecem tão pouco.

Não sei o que cada um desses lugares conserva dos antigos moradores. Gostaria de percorrê-los sem pressa, fotografar as entradas, olhar as janelas. Saber se há uma placa, se alguém ainda conta alguma história. E, quando não houver nada, ficar um pouco assim mesmo.

Talvez quem me visse parado numa dessas calçadas pensasse que eu estava procurando alguém.

De certa maneira, estaria.

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Daniel Marchi é poeta, contista, advogado e professor universitário no Rio de Janeiro. Editor do Café Literário e fundador da Editora Fava, é autor de A Verdade nos Seres (poesia, 2024) e Território do Sonho (contos, 2026). @prof.danielmarchi.

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