Há uma situação recorrente em literatura que me dá um profundo tédio: o atleta declara-se pouco inspirado para escrever uma crônica, diz-se disposto a, ainda assim, seguir em frente, vai registrando seus cambiantes estados de espírito a cada linha que consegue produzir e, papum, cometeu uma crônica.
Por vezes o botucudo enriquece o samba-enredo, cita Rubem Braga, Fernando Sabino e outros luminares do gênero, pontifica que uma crônica é um texto gostosinho sobre o quase nada ou o absolutamente nada e avança, impávido, rumo ao ponto final do texto. Considero isso um golpe baixo, uma passada de mão na bunda do leitor.
Quer dizer, considerava, até que outro dia minha inspiração bateu asas e voou. Pensei em imitar meus pares (ou meus ímpares), confessar a carência e ir adiante penosamente, maltraçada após maltraçada, até o papum, véspera do ponto final, mas me contive. Convoquei os deuses do Olimpo em vez disso, abri a janela do meu apartamento e gritei na noite paulistana, a plenos pulmões:
— Vem, musaiada!
E a musaiada obedeceu. Vieram três moçoilas, velhas conhecidas, descritas no conto Musas (já publicado no Café Literário de Notibras): três mulheres jovens e bonitas, duas delas com túnicas de estilo grego. Uma delas tinha um olhar triste, enquanto a outra exibia no rosto um sorriso sensual. Eram, respectivamente, a musa dos contos de melancolia e a inspiradora dos contos eróticos.
A terceira jovem é descrita em Musas nos seguintes termos: “Era uma potranca, gostosa e com cara de tesuda. Nada de túnica para essa. Vestia uma microminissaia e uma blusa que não ocultava nada de seus lindos seios”. Apresentou-se como a musa das histórias de putaria desenfreada.
Contei-lhes da minha falta de inspiração e pedi-lhes auxílio. Todas atenderam com sofreguidão, embaralhando enredos.
— Põe o cara e a mina na cama. Aí ela pede mais e ele nega fogo – disse a dos contos eróticos.
— Então ela corre pra janela e chama três carinhas que enrabam os dois – complementou a da sacanagem desenfreada.
— Vocês estão loucas? A broxada é uma excelente oportunidade para ele e ela tomarem consciência das limitações da carne – contrapôs miss Melancolia. – E
o casal continua a se amar, não deixe de enfatizar esse aspecto.
Só então percebi a burrada que havia cometido. Ao convocá-las em massa, dei-lhes o direito de sugerir abobrinhas, o que lhes desse na telha. Só me restava registrar as barbaridades que sugeriam.
Foi o que fiz, até que não aguentei mais.
— Chega! Agradeço a todas, estou com cinco sugestões de enredo a serem examinadas com vagar (mentira, estava com cinco exemplos de desvario erótico-melancólico-pornográfico literário, destinadas à lata de lixo da história). Obrigado, repito, mas agora vocês devem voltar ao Olimpo.
— Olimpo? Kkk, eu vou é pra uma suruba, mó legal – observou depois de uma gargalhada a escrachadota.
As três partiram, a da putaria feliz como um pinto no lixo, as outras duas, vagamente decepcionadas. Acho que esperavam que eu escrevesse os contos na hora.
Resumo da ópera, estou com cinco enredos que, se desenvolvidos, me garantiriam as chamas do inferno – e, neste plano, a suspensão permanente em todos os meus grupos sociais. Para vocês terem uma ideia, eis o título do único enredo que, depois de muito trabalho, de eliminação de uns 90% de barbaridades, poderia dar samba: “A ceguinha ninfomaníaca, o CEO triste e broxa e Ricardão, o bem-dotado”.
(A referência ao Ricardão, com sua variante “o enrabador” ou “os enrabadores”, resume as contribuições da musa da putaria desenfreada aos enredos. Mas, tenho de admitir, ela era a mais bonita das cabrochas dessa ala.)

