O Farol dos Tempos

Eduardo Martínez
5 minutos de leitura
Gilberto Motta - Foto Divulgação

O italiano Umberto Eco (1932-2016), é um daqueles meus heróis da comunicação/semiótica e das letras. Pesquisou como poucos a cultura de massa.

Em 2015, um ano antes de sua morte, Eco recebeu o título de “Doutor Honoris Causa em Turim”. Foi professor por décadas na Universidade que amou durante toda a sua vida.

Em seu discurso, diante de acadêmicos e estudantes, o escritor — já consciente de que se aproximava do fim da vida — refletiu sobre as transformações nas interações sociais em tempos de comunicação massificada. Colocou o dedo diretamente na Era da Internet e dos algoritmos.

“O drama da internet é que ela promoveu o idiota da aldeia a portador da verdade. Normalmente, eles [os imbecis] eram imediatamente calados, mas agora eles têm o mesmo direito à palavra de um Prêmio Nobel. Antes, os idiotas da aldeia tinham direito à palavra em um bar e depois de uma taça de vinho, sem prejudicar a coletividade”.

ERUDIÇÃO, SINTONIA E ÉTICA

Conhecido por sua vasta erudição e análises sobre a cultura, Eco expressou preocupação com os rumos da discussão pública, criticando a banalização do debate e a ascensão de vozes irresponsáveis pulverizando as novas ferramentas digitais que começavam a tomar conta de tudo com a internet.

Na época, suas palavras foram vistas por alguns desavisados “futuristas” deslumbrados, como elitistas e antidemocráticas, quase como uma defesa implícita de que certas opiniões deveriam ser restringidas conforme o “gabarito intelectual” de quem as profere.

Porém, mais uma vez o senso visionário e o domínio da reflexão e análise estavam ao lado de Eco.

O tempo mostrou que Eco estava longe de ser apenas um crítico amargo.

Nos anos seguintes, uma onda de líderes populistas, negacionistas e figuras que se encaixam no que ele chamou de “idiotas da aldeia global” ganhou espaço na política mundial. Todos utilizando as redes “sociais” e as ferramentas digitais determinadas pelos algoritmos. Discursos pobres de ideias, negacionismo, fake News.

O que parecia um discurso arrogante de Eco revelou-se, na verdade, um alerta visionário sobre os riscos da desinformação e do emburrecimento do debate público.

Hoje, diante de crises políticas e polarizações alimentadas por discursos rasos, a fala de Umberto Eco ressoa não como mera nostalgia de um intelectual saudosista, mas como um diagnóstico preciso, exato — e assustadoramente profético — dos tempos sombrios que vivemos.

“O NOME DA ROSA”, ECO EM QUADRINHOS

O lado literário de Umberto Eco é riquíssimo. Escreveu obras fundamentais para quem ama os ensaios e romances. Um dos maiores clássicos da literatura mundial, o livro O Nome da Rosa, obra-prima de Eco, vai ganhar uma nova versão. Depois de virar filme de grande sucesso e ser adaptada para o formato de série no streaming, dessa vez, a obra ganhou em uma versão para HQ. Isso mesmo, a obra vai virar “banda desenhada” pelos quadrinhos.

A adaptação ficou por conta de Milo Manara, um dos maiores nomes dos quadrinhos da Itália, terra de Eco. Ainda não há previsão para tradução e publicação no Brasil.

O nome da rosa foi o romance de estreia de Umberto Eco, publicado em 1980, e tornou-se um sucesso mundial quando o diretor Jean-Jacques Annaud adaptou o livro para o cinema. O que parecia impossível aconteceu: o filme é uma obra-prima e fez sucesso de crítica e de público, com Sean Connery como o franciscano investigador/detetive William de Baskerville.

Umberto Eco será para sempre um de meus heróis prediletos.

Não deixe de ler o livro e ver o filme.

< Onde assistir ao filme O nome da Rosa:
https://www.netflix.com/br/title/70000552?s=a&trkid=13747225&shareType=Title&shareUuid=4286fdb2-52be-46f4-9045-4f7b8e45dfcb&trg=wha&unifiedEntityIdEncoded=Video%3A70000552&vlang=pt

<Análise do filme: Plano Crítico:

https://share.google/R547klVYNFffO7XhS

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Gilberto Motta é escritor, poeta, jornalista e pesquisador. Vive no vilarejo de pescadores da Guarda do Embaú, litoral Sul de SC.

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