O indeciso

Eduardo Martínez
4 minutos de leitura
Cadu Matos - Foto Francisco Filipino

A exemplo do que ocorreu em 2022, a eleição presidencial de 2026 será decidida pelos votos dos indecisos. O termo refere-se a uma parcela dos cidadãos que genuinamente não se interessam por política. Não é que estejam escondendo o jogo, ou mentindo nas pesquisas eleitorais: não se interessam mesmo, ponto final.

Diante disso, imaginei um cenário fictício (como todo texto de ficção, dã).

O indeciso aproxima-se de alguns cabos de Lula e Flávio Bolsonaro. Eles reagem como tubarão que sente cheiro de sangue.

— Boa tarde, dr. Ind! – gritam simultaneamente dois cabos eleitorais de grupos opostos; chamá-lo de “seu indeciso” seria arriscado, vai que ele não goste, fique ofendido. E, a essa altura, cada voto vale seu peso em ouro.

— Sente na poltrona, dr. Ind, ela é bem confortável. Quer um suquinho de cupuaçu? – pergunta, solícito, um deles.

— Ou prefere de maracujá, dr. Ind? – intervém o outro.

O indeciso sua frio, tomar decisões não é definitivamente sua praia. No fim, aceita os dois, pra não ofender, pois era um homem tímido e gentil, um amor de pessoa.

Os aliciadores dos dois campos aproximam-se e caem matando.

— O senhor é cristão, né, dr. Ind? Então não pode votar no Novededos, que é um comunista ateu (dupla mentira).

— O senhor é católico, que nem o nosso querido presidente Lula, né, dr. Ind? O Rachadinha, amigo de miliciano, irmão do Vorcaro, quer retirar de Nossa Senhora de Aparecida a condição de padroeira do Brasil! (mentira).

O coordenador dos cabos eleitorais lulistas entrou em campo.

— Não é bem assim, companheiro — e, dirigindo-se ao indeciso, explicou em tom sério:

— A verdade, dr. Ind, é que gente da turma do Rachadinha, parça de miliciano, irmão do Vorcaro, chutou a imagem de Nossa Senhora num programa de TV (verdade). E gente da turma dele apresentou, na Câmara, um projeto para retirar de Nossa Senhora de Aparecida esse título (verdade). O projeto está parado, mas, se o filhinho do demo ganhar, pode ser retomado a qualquer momento (verdade).

O indeciso suava em bicas, sem saber no que acreditar.

O massacre prolongou-se por uma semana. Quando faltavam dois dias para o primeiro turno da eleição, o relutante decidiu-se.

— Agradeço aos dois, vocês me ajudaram a tomar uma decisão – declarou aos cabos eleitorais. — Não estou mais indeciso, vou votar em…
(A partir desse momento, o texto vai em chave dupla. Que não me atrevo a revelar o voto do cidadão.)

— Comuna!

ou

— Bolsomínion!

rosnou um deles, em tom baixo e rancoroso. O ex-indeciso não ouviu.

— Outra coisa, não me chamem mais de dr. Ind, não sou doutor e não estou mais indeciso — declarou o recém-convertido, todo pimpão. — Claro que tu não é doutor, tu não passa de um petralha fiadaputa!

ou

— Claro que tu não é doutor, tu não passa de um pobrededireita fiadaputa!

E o fracassado na árdua missão de angariar votos baixou-lhe a porrada.

Dois dias depois, coberto de equimoses pela surra que levou, o ex-indeciso cumpriu seu dever cívico.

— Em que ele votou? – vocês talvez perguntem.

— Não sei mesmo – respondo. — E acredito piamente que nem ele saiba. Fiz-lhe essa pergunta; contou-me que, dois minutos após confirmar o voto, esqueceu qual nome escolhera, voltou ao seguro e gratificante status de indeciso.

— Estar em dúvida era legal, eu ganhava suquinho — declarou-me, num rasgo de sinceridade. — Depois que fiz essa maledetta opção política, só ganhei porrada!

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