Eu, tu, vós e… Eles!

Eduardo Martínez
3 minutos de leitura
Gilberto Motta - Texto e Foto

“Na era moderna, as democracias não morrem de forma repentina por meio de golpes militares com terror concreto e armas, mas de maneira lenta e sutil pelas mãos de líderes legitimamente eleitos pelo voto: tudo dentro das quatro linhas da Constituição”
(“Como as Democracias Morrem”, livro de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, 2018)

1.

O princípio da politicalha do “nós ou eles”.

O jogo do A contra o B e/ou vice-versa.

O golpe sem fim, interminável.

O Eu fundamenta tudo pelo fato de que é o Eu quem pensa.

E pensando, dá sentido a todas as ligações aberrativas que estão na base da coisa ilógica.

O Eu é condição de si mesmo; ele compõe a si mesmo.

O Eu é da forma que ele se fez a si mesmo.

É a autocriação.

O Eu gera o ser/coisa e as pós-verdades aberrativas.

“Tudo são narrativas”.

2.

Não é a ação que vem dele, mas – ao contrário -, é o agir do Eu que define as versões que ficarão dos fatos.

O Ser é o resultado do articular e menos do agir.

Mas quem age inicialmente é o Eu.

Moto-perpétuo, morte cíclica onde tudo retorna ao início.

O Eu é algo ativo e sem restrições e não algo passivo e restrito ou dependente.

O Eu é o princípio absoluto do qual derivam todas as outras coisas e ações.

O Eu não é o Outro: é fundamentalmente o Eu.

O Eu só existe se isolado do coletivo-mundo.

Neste sentido, o Eu forja a imagem no espelho, o contraponto: uma antítese.

E como ele se impôs, o Eu acaba criando um Não-Eu para se contrapor à sua posição.

Pronto: o conflito está estabelecido e perpetuado.

3.

O Eu-fake e o Não-Eu, são rebentos fétidos e monstrengos do Eu.

O Não-Eu é imprescindível para que o Eu possa se identifica e ser ungido como o deus, o mito: o Eu-total ditador.

Pós-confronto, o Eu mata friamente a democracia dentro das regras do jogo democrático.

O Não-Eu não está fora do Eu; agora, ele faz parte do Eu-autocrata imperador.

4.

Cena final. Nada pode ser pensado e executado fora do Eu.

Fraternos opostos, fraturas antes expostas, agora ocultas no lixo da História.

A bipolaridade fundamentalista sedimentou o projeto negacionista fascistóide.

Radicais às avessas.

Muito além do breu da caverna.

Tudo está consumado.

5.

No angu-geleia geral brasileira, seguem de mãos dadas o Eu, o Tu e o Vós.

As mentes e os corpos do Nós apodrecem – e fedem – sepulcros vala comum da “pandêmica ditadura democrática”

…………………………..

Gilberto Motta é escritor, poeta e jornalista. Vivendo na caverna do Vale da Utopia, na Guarda do Embaú, litoral de SC e pesquisa os fundamentos para entender como morrem, hoje, as democracias.

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