“Na era moderna, as democracias não morrem de forma repentina por meio de golpes militares com terror concreto e armas, mas de maneira lenta e sutil pelas mãos de líderes legitimamente eleitos pelo voto: tudo dentro das quatro linhas da Constituição”
(“Como as Democracias Morrem”, livro de Steven Levitsky e Daniel Ziblatt, 2018)
1.
O princípio da politicalha do “nós ou eles”.
O jogo do A contra o B e/ou vice-versa.
O golpe sem fim, interminável.
O Eu fundamenta tudo pelo fato de que é o Eu quem pensa.
E pensando, dá sentido a todas as ligações aberrativas que estão na base da coisa ilógica.
O Eu é condição de si mesmo; ele compõe a si mesmo.
O Eu é da forma que ele se fez a si mesmo.
É a autocriação.
O Eu gera o ser/coisa e as pós-verdades aberrativas.
“Tudo são narrativas”.
2.
Não é a ação que vem dele, mas – ao contrário -, é o agir do Eu que define as versões que ficarão dos fatos.
O Ser é o resultado do articular e menos do agir.
Mas quem age inicialmente é o Eu.
Moto-perpétuo, morte cíclica onde tudo retorna ao início.
O Eu é algo ativo e sem restrições e não algo passivo e restrito ou dependente.
O Eu é o princípio absoluto do qual derivam todas as outras coisas e ações.
O Eu não é o Outro: é fundamentalmente o Eu.
O Eu só existe se isolado do coletivo-mundo.
Neste sentido, o Eu forja a imagem no espelho, o contraponto: uma antítese.
E como ele se impôs, o Eu acaba criando um Não-Eu para se contrapor à sua posição.
Pronto: o conflito está estabelecido e perpetuado.
3.
O Eu-fake e o Não-Eu, são rebentos fétidos e monstrengos do Eu.
O Não-Eu é imprescindível para que o Eu possa se identifica e ser ungido como o deus, o mito: o Eu-total ditador.
Pós-confronto, o Eu mata friamente a democracia dentro das regras do jogo democrático.
O Não-Eu não está fora do Eu; agora, ele faz parte do Eu-autocrata imperador.

4.
Cena final. Nada pode ser pensado e executado fora do Eu.
Fraternos opostos, fraturas antes expostas, agora ocultas no lixo da História.
A bipolaridade fundamentalista sedimentou o projeto negacionista fascistóide.
Radicais às avessas.
Muito além do breu da caverna.
Tudo está consumado.
5.
No angu-geleia geral brasileira, seguem de mãos dadas o Eu, o Tu e o Vós.
As mentes e os corpos do Nós apodrecem – e fedem – sepulcros vala comum da “pandêmica ditadura democrática”
…………………………..
Gilberto Motta é escritor, poeta e jornalista. Vivendo na caverna do Vale da Utopia, na Guarda do Embaú, litoral de SC e pesquisa os fundamentos para entender como morrem, hoje, as democracias.

