Quem sabe amanhã
E o que faço agora, amor, deste oceano de saudade
que me invade como maré alta sob a lua cheia?
Este tumulto doce de te recordar,
do sabor de açaí maduro em tua boca,
puro, silvestre, que ainda queima na minha?
Talvez amanhã o vento leve teu nome…
hoje, porém, é tarde demais para a maré baixar.
Tuas mãos, firmes como âncoras de seda,
desvendavam os caminhos secretos do meu corpo.
Sob o peso quente da tua pele, o meu se arrepiava,
latejava, se contorcia em ondas de desejo puro,
sobre o leito de algodão e renda,
onde o tempo se dissolvia em suspiros.
Talvez amanhã eu diga “nunca mais te quero”
e ri, leve, deste sentir tão dilatado
que hoje me habita por inteiro,
como vinho antigo escorrendo pelas veias.
Mas o amanhã ainda é apenas brisa tímida
que se insinua entre as cortinas da noite.
É crença frágil, sonho de cristal e poesia,
a vaga promessa de um dia sem o peso
nem a perfumada lembrança de ti.

