O Café Literário de Notibras completou dois anos. Parabéns! Hoje a festa é nossa, quer dizer, dos autores que publicaram seus textos por esse instrumento. De minha parte, até que não foi tão mal assim: foram 503 contos, crônicas e até alguns poeminhas divulgados ali entre 15 de setembro de 2024 e 15 de setembro de 2026.
Isso posto, como dizia a galinha, extenuada e rasgadita, segue uma crítica (sim, sou ranzinza, rabugento, mas tô com 80 anos, a idade provecta me permite essas y otras cositas más, entre elas brincar com palavras pra lá de empoeiradas).
Vamos ao caso. Em 12 de setembro, recebi um email do Café Literário com os seguintes dizeres:
“Prezado Cadu, boa noite!
O seu texto foi aprovado pelos editores Daniel Marchi e Eduardo Cesario-Martínez e será usado em breve no Café Literário.”
Usado? Que sinceridade brutal, que falta de touché! Fui imediatamente conferir outros e-mails de aprovação de textos, e os verbos eram bem mais educados: seu texto será publicado, divulgado, veiculado e por aí vai.
“Ato falho”, pensei. Mas então lembrei de algumas observações de Freud, no sentido de que atos falhos não são tão inocentes assim…
Decidi em seguida contatar dois parças do Café Literário, a incomparável e o genial (pesquisem na página Café Literário de Notibras, no Facebook, para saber quem são os atletas) para checar se algo assim já havia ocorrido com eles. Contudo, a exemplo de atos falhos, adjetivos não são inocentes. Por isso, refuguei: euzinho, um reles controverso, não ia incomodar alguém incomparável e outro alguém genial com minhas mazelas.
Fiquei pensando na coisa. O email despia a criação literária de qualquer aura e reduzia um texto a uma commodity, algo a ser usado e abusado, conforme a conveniência do explorador da força de trabalho (diga-se que o Café Literário não paga um tostão furado, mó exploração). Voltaram-me à mente velhas lições aprendidas nas páginas do Manifesto Comunista e de O capital. Senti-me um proletário da escrita, que nada tinha a perder senão minhas cadeias literárias, mas então lembrei de uma historinha bem mais maneira que os textos dos velhos Marx & Engels.
Minha madeleine, ferramenta não proustiana de recordação, foi a velha história do casalzinho do interior:
– Marido, vai me usar hoje?
– Não, muié.
– Então vou lavar só os pé, não vou lavar a prissiguida.
Este é o meu recado pro Café Literário: quando não forem usar meus textos, avisem, eu lavo só os pé. Que na capital paulista faz um frio do cão para um banho prolongado, com direito a muita água, sabão e chochoc na prissiguida.
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O escritor Cadu Matos está coberto de razão por se sentir incomodado por uma troca da palavra “publicado” por “usado”. Falhas acontecem, e a equipe do Café Literário não está imune a erros.

