Rodolfo se julgava o fodão, o bambambam, o dominador de fêmeas, o pastor de putas.
Parte disso era consequência de seu físico. Era baixo, troncudo, braços fortes, peludo…o retrato cuspido e escarrado de um cafetão. Tal aparência ajustava-se como uma luva a seu emprego de leão de chácara no bordel – e, nas horas vagas, de controlador das minas, atividade bem mais rentável.
Ele, porém, vivia triste. Sentia-se irmão espiritual de seu xará, Rodolfo Valentino, o sedutor incomparável. Mas o físico não ajudava. O intérprete de O sheik nas telas não era forte e coberto de pelos, que nem ele, não tinha o layout de um cafiolo, um cáften de terceira; era esbelto e pálido, a elaborada arte final de um gigolô perfeito, alguém que não dominava as mulheres pela força, fazia com que se derretessem com seu olhar penetrante. Gigolô e cafetão eram predadores situados nas mais altas posições da exploração de corpos femininos – e Rodolfo, uma das feras, sonhava em ser a fera rival.
Certo dia, entrou no cabaré um desconhecido, cuja aparência levou Rodolfo a paroxismos de raiva: foi como se um leão sentisse o odor de um macho de outro bando, na savana africana. O recém-chegado era jovem, uns 5 anos a menos que ele, magro e esbelto. E tinha feições harmoniosas, o que jamais se poderia dizer do cafiolo do pedaço.
“Homossexual ou gigolô”, pensou Rodolfo. “Tomara que dê coluna 1”.
Mas deu gigolô na cabeça. As gatas se derreteram com a gentileza e a suposta timidez do moço e o cobriram de presentes caros. E, evidente, fizeram fila para dar pra ele.
— Reginaldo é tão atencioso, tão delicado conosco – diziam todas. – E trepa como um deus – acrescentavam algumas felizardas, que já haviam recebido, digamos, o agradecimento pelos presentes ofertados.
O que mortificou Rodolfo, ao saber do comentário, não foi a perspectiva de ver diminuir a grana que extorquia das minas. Foi o nome do fiodeumaégua, Reginaldo, que considerava bem adequado a um gigolô, quase tão apropriado quanto Rodolfo Valentino.
Certa noite, Rodolfo não aguentou mais. Aproximou-se de Reginaldo aos berros.
— Gigolô de merda! Vou te cobrir de porrada!!!
Mandou um direto, que se perdeu no vazio. Reginaldo era ágil, dançava em redor dele, castigando seu rosto com jabs. Depois de, por assim dizer, amaciar a carne, o predador mais jovem mandou um gancho, um só, no queixo do cafetão, que desabou.
Dois dias depois, o rosto inchado e coberto de equimoses, Rodolfo bebia um conhaque no balcão, tomando cuidado para não encarar o rival vitorioso, quando entrou um rapaz no cabaré. Devia ter pouco mais de 20 anos. Era alto, magro e esbelto, mais que Reginaldo; parecia um señorito, um dançarino de tango. E as feições! Eram perfeitas, o rosto de um anjo.
O recém-chegado dirigiu um sorriso cativante às profissionais do sexo, um sorriso que as deixou na ponta dos cascos, como o diabo gosta, prontinhas para dar vida mansa ao princeso.
— Boa noite, senhoritas. Meu nome é Enzo, Enzo Gabriel.
Deixou os olhos vagarem, frios e calculistas, pensando na grana que as minas renderiam. Rodolfo percebeu tudo.
“Ah não! Mais um, não!”, pensou ele, desolado. E tomou um porre de criar bicho.

